Observando a cena. Cheiro de ketchup morno da moça curvada que come um sanduíche do McDonalds ao meu lado, a dois metros e meio de mim, com pressa e sem mesa. À frente, a uns seis metros, a senhorinha que desde que cheguei ali estava. Sacola, bolsa, acampadas no banco; trajes de quem se perdeu na década de 40 - mas daqueles que eram uns coitados nos 40, inascensionáveis em suas condições de queda. Calor, ela de roupas pesadas e escuras, invernais, gola alta, casaco marrom, saia que mostra uns palmos das canelas. Os sapatos são igualmente anacrônicos e sóbrios, de saltinho; no direito um saco plástico verde o reveste, no esquerdo, um branco. Suas pernas desarmônicas chamam mais a atenção que suas feições e cabelos ciganos. O plástico verde ressalta a vermelhidão e inchaço de sua canela desnuda e remete, com minha ignorância diagnóstica, à gota ou qualquer doença tratável que maltratou tantos medievais. O plástico branco é preso com uma fita da cor da meia bege velha que veste a outra perna, supostamente livre do mal. Seu guarda-chuva é azul de babados. A postura de suas costas, debruçadas no pilar branco, é tão desoladora quanto sua expressão de sofrimento. Aqui há mais de meia hora, chorou um ganido agudo de dor que captou a atenção de duas moças que trabalham na galeria. Prosearam sobre a condição da senhorinha por vários minutos e deram tchau com boa sorte. No meio tempo o segurança pediu que eu tirasse os pés do banco. Contestei, perguntei de quem eram as ordens e seus porquês, tirei meus pés para, já distante o segurança, retorná-los.
sábado, 17 de dezembro de 2011
De Juan Gelman
toda a poesia é hostil ao capitalismo
pode tornar-se dura e seca
não por ser pobre mas
para não ajudar à riqueza oficial
pode ser o seu modo de protestar de
tornar-se fraca já que existe fome
amarela de sede e queixosa
da pura dor que existe pode
em troca abrir os becos do delírio e as bestas
cantarem atropelando-se vivas de
fúria de calor sem destino pode
até negar-se a si mesma enquanto outra
maneira de vencer a morte
tal como chorar nos velórios
poetas de hoje
poetas deste tempo
apartaram-nos da grei sei lá o que será de nós
conservadores comunistas apolíticos quando
suceder o que há-de suceder mas
toda a poesia é hostil ao capitalismo
Tradução de A.M.
sexta-feira, 2 de dezembro de 2011
Causo infausto
Rede social, aquela porcaria de sempre. Digitar o endereço cru faz cair na página inicial, não em seu próprio perfil.
Feeds.
Essa porra que chama o olhar como outdoor na rua (ah, é mesmo, nosso exímio prefeito os limpou!) ou como as televisões em restaurantes que são distribuídas daquela maneira difícil de se evitar.
Aquela menina; chegou a estudar brevemente comigo. Sinceramente nem lembro que existe e, quando o faço - via Facebook -, só serve para lembrar da gente rica da vida vazia.
Deprime.
Bati o olho em duas atualizações seguidas. Numa, 'curtiu' uma bobagem qualquer "sonho de toda mulher: gato e rico" e em seguida fotos postadas de seus cachorros, gordos, feitos como bonecos ou crianças infelizes: chapéu de papel, gravata, roupa de bailarina, sorvete canino, sorvete humano, festa de aniversário. Legendas que me lembram aquelas personalidades doutros séculos, desvairadas, fora de órbita e aristocratas. Mas mais deprimente.
Desfazer amizade.
Tem certeza que deseja tirar da sua lista de amigos?
Sim.
Isso tudo é realmente bem deprimente, assim, salingerianamente.
terça-feira, 29 de novembro de 2011
sexta-feira, 25 de novembro de 2011
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Veneno era o vinho na taça
Tenho há anos um piano.
Sem banquinho.
Simples, digital, simulador dalgum caro de cauda por aí.
Tem o pedalzinho sostenuto e imita bem bizarro um som de cravo.
É ótimo e mal custou,
a empresa do cartão de crédito conta como prejuízo os casos de óbito.
Bonito, desmonta e remonta, tão bonito na sala.
Parece um móvel.
Inda estranho os fios elétricos para una corda,
pior ainda não ter banquinho.
Não fui sou serei pianista mas tão fácil tendinite, outros, com más postura altura.
Cadeira cinza giratória de escritório.
Parece escrivaninha.
Eu entrei nesta outra casa e não tem nenhum piano
de armário
de cauda
ou de mesa simulacro como o meu.
Tem uma mesona imensa bem antiga
e um banquinho de piano na sala.
Sentei nele vendo estruturas precisas e falei em organicidade.
sábado, 5 de novembro de 2011
Agápico
Falou-se em posse com uns dedos puxando gramíneo grosso preto e nada poderia ser mais terno que isso. Foi é terno e forte e a outra língua que calou sem abafar. Grande prazer de pessoa facunda é o silêncio conquistado, esferas diversas, se conquista e silencia em anos circunstâncias.
Em sonho e pensamento, tudo antes e não deixa de assustar o novo desconhecido, novo de verdade, de repente só verdades.
Tudo começou num templo chinês, ali perto da Estação Conceição. Duas garrafas víneas eram a balança perfeitinha acertadinha. As duas pela metade.
Sonho alquímico me livrou do velho IAO e abriu ajeitou pra nova coisa. É templo na megalópole é chinês, capim obscurecido, encontro; profanação liberta e sacramenta.
sexta-feira, 28 de outubro de 2011
Rabugicinha mon amour
Quase que cuidado, pavimentação e cimentação: feio útil excitante necrosante e aquela florzinha drummondiana que irritante. Lá na Letras era assento sanitário na terra, lá no centrinho do labirinto cinza. Eu sempre quase escorregava em noites chuvosas naquela bosta de piso. Liso, smooth, esse cacetinho fefelechento, e aquela veterana chatíssima "cê vai cheirar e pegar mulher pode acreditar cê é uma gatinha e" pra puta que te pariu que era ranzinza e cinza, porra.
Daí anos e cimentação e pavimentação e tentaram piche mas arre que aí é demais. E falam em demolição em mistério em vírgulas e conjuntivos e eu cínica que é melhor parar pois piso
rala joelho esfola pé de pedra-pomes e odor de humano pra gente rica.
Cuidado, que é suspenso movediço cacos d'almotolia por todo lado e jardim que some e muda, não hesita; nunca.
sexta-feira, 21 de outubro de 2011
Andei dormindo como o cidadão comum, no horário de quem trabalha em horário comercial, acordando antes do despertador bem dormida e sem insônia. É anemia, só pode ser, estou pálida, não? Não, mas veja bem, olha minha boca branca e meus olhos sem brilho, cala a boca, Sofia. Mulungu foi placebo que mesmo sem ele dormiu, mas sem ele dormi antes e acordei no meião, literária e com fome. É que não sai da cabeça literário,
eu cheguei antes, e era combinado, tão combinado que havia arrumação que eu ri, tão óbvio ser forjado, os livros empilhados "pode fuçar no que quiser", então fui no imanipulável e inforjável e funguei no travesseiro.
as térmicas são uma pra café, uma pros chás todos (mesmo o torrado forte não impregna) e uma normal virou laranja, qualquer água tem laranja agora. Melhor dar espaço pras ideias fixas, então tá.
(ri de mim mesma que adotei monstrengo mitológico mas é fidalgo disparate)
o Chet com mandíbula virgem a cappella canta esparsamente Blue Room pelo acá que se desfaz.
eu gosto daquilo que brinca de esconder e não consegue, mais.
quarta-feira, 19 de outubro de 2011
Bobagem essa de que palavras tiram a graça, de que palavras não expressam, dividem, distanciam, essa coisa do pecado original, tudo coisa besta, não são detrimentosas por excelência, é bobagem de quem não sabe usá-las.
É bonito pra caramba com uso e virtuose e etimologia e simplicidade, e até termos que de repente usados gerundialmente roubam um sorrisinho besta bem besta de quem assassinou literatura em outros anos por covardias e covardias só.
de A. Massi
Enfeitiçados
os corpos
mudos na cama
camaleônica
mitologia
dos amantes
e das manhãs
sopro
silêncio
no teu sexo
o verão
reverbera
em festa
único lençol
a luz comum
do sol
e a surpresa
deste amor que
não pede provas
segunda-feira, 10 de outubro de 2011
sábado, 8 de outubro de 2011
Em sonho tomava ácido potentíssimo com amigas hipotéticas, uma delas com deficiência mental. Dei um para cada e enfiei três na boca, começou com a caixinha de óculos para matar a saudade mas, antes dos efeitos, muita tensão pois a amiga deficiente tem um colapso e vem a ambulância. O nervosismo é tanto que desconto tudo num calvo qualquer que aparece falando qualquer desaforo.
Já sob efeitos e cheias de risada; comento "e quem raios era aquele calvo?" ao que uma delas piadou "o Ira Levin!". Quase engasgo de tanto rir ao bradar "eu mandei o Ira Levin tomar no cu!"
Adoro meu inconsciente.
sexta-feira, 7 de outubro de 2011
terça-feira, 4 de outubro de 2011
Domingo, de Vítor Nogueira
Acordámos com o céu encostado
no ouvido, nuvens que ladravam e mordiam
o domingo, a partir do alto das montanhas.
E aqui continuamos, agarrados a nós próprios,
como dois miúdos que não têm para onde ir.
Estamos presos ao sofá unicamente porque sim,
nem tristes nem alegres, metidos no roupão
e nos chinelos, pequenos cadeados de trazer
por casa. O mundo, esse, vem buscar-nos
amanhã. Bate-nos à porta, à hora do costume,
palitando os dentes com a ponta da navalha.
domingo, 2 de outubro de 2011
Era o prédio com árvores na frente, meu olho esquerdo bem no prédio enquanto o direito no direito dele, pequeno, como um professor que confunde alunos "Mas qual olho? Qual olho, meu deus do céu?", com joguinhos expressos e verdade enlatada e daí
mosquito esparramado no vidro do café que bicho que ataca é bicho arredio.
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
Fortuitos
Lembro de meu avô algumas vezes ao meu lado na Sala São Paulo. Desprezou o Dutilleux como 90% da plateia, vibrou com Berlioz.
Tempos antes, no carro, disse a sério e grave ser Schoenberg uma perversão musical. Eu ri.
Devia ter uns três ou quatro anos. Meu pai gravava com a câmera meu avô, em seu sítio em Cotia, dançando Gershwin comigo no colo; meu irmão girava sozinho. Gosto desse vídeo. Se não me engano era I've got Rhythm.
Meu avô já foi ao Tibet e à China, com mais de 70 anos de idade. Eu não.
Tenho um restinho de oolong chinês que me deu, aqui, num saquinho. Fica junto com meus chás vietnamitas. Até hoje não provei desse oolong. É um restinho.
Quando era cantora e adolescente ele desprezava assumidamente as palavras em detrimento da música. Música vocal é inferior, dizia.
Disse não entender meu encanto pela música cambojana, sem teoria, temperamento nem registro: a música erudita ocidental é claramente superior, é grandiosa e complexa, nada nunca ganhará de uma sinfonia de Brahms. Nunca ouviu a música khmer.
E saiu do recinto quando com taça na mão falei sobre a poesia.
Era natal.
terça-feira, 27 de setembro de 2011
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Todo o sofrimento ACABARÁ EM BREVE

Em algum momento na vida, você provavelmente já se perguntou: "Por que há tanto sofrimento?" Há milhares de anos, o homem vem sofrendo muito devido a guerras, pobreza, calamidades, violência, injustiça, doenças e morte. Nunca houve tanto sofrimento como nos últimos cem anos. Será que um dia isso tudo vai acabar?
Que consolo é saber que vai, sim, e muito em breve!A Palavra de Deus, a Bíblia, declara: "O iníquo não mais existirá ... mas os próprios mansos possuirão a terra e deveras se deleitarão na abundância de paz." Por quanto tempo? "Os próprios justos possuirão a terra e residirão sobre ela para todo o sempre." - Salmo 37:10,11,29.Depois que Deus acabar com a maldade e o sofrimento, a Terra será transformada num paraíso. Então, as pessoas vão poder viver para sempre com saúde perfeita e plena felicidade. A Palavra de Deus prediz: " [Deus] enxugará dos seus olhos toda lágrima, e não haverá mais morte, nem haverá mais pranto, nem clamor, nem dor." - Revelação [Apocalipse] 21 :4.Nesse novo mundo, até os mortos viverão novamente e desfrutarão dessas bênçãos: "Há de haver uma ressurreição tanto de justos como de injustos." (Atos 24:15) E por isso que Jesus pôde dizer o seguinte a um criminoso arrependido que demonstrou ter fé nele: "Estarás comigo no Paraíso." - Lucas 23:43.Por que surgiu o sofrimento?Por que Deus deixou que o sofrimento tivesse início, visto que seu propósito era que a humanidade tivesse um futuro maravilhoso? Por que ele permite que exista por tanto tempo?Deus criou Adão e Eva com corpo e mente perfeitos, e os colocou num jardim paradísico, onde receberam trabalho agradável para fazer. A Bíblia declara:"Deus viu tudo o que tinha feito, e eis que era muito bom." (Gênesis 1:31) Se tivessem obedecido a Deus, Adão e Eva gerariam filhos perfeitos, e a Terra teria se tornado um paraíso global, onde as pessoas viveriam para sempre em paz e felicidade.Deus deu a Adão e Eva o maravilhoso dom do livre-arbítrio como parte da natureza humana, ou seja, eles não foram criados como robôs. No entanto, para continuarem vivendo felizes, precisavam usar o livre-arbítrio da maneira correta: obedecendo às leis de Deus. É conforme Deus diz: "Eu,Jeová, sou teu Deus, Aquele que te ensina a tirar proveito, Aquele que te faz pisar no caminho em que deves andar." (I saías 48: 17) Usar mala livre-arbítrio acabaria em desgraça, visto que o homem não foi feito para ter êxito na vida independente de Deus. A Bíblia diz: "Não é do homem terreno o seu caminho. Não é do homem que anda o dirigir o seu passo." - Jeremias 10:23.Infelizmente, nossos primeiros pais acharam que poderiam ser independentes de Deus e ainda assim ser bem-sucedidos. Mas, ao rejeitarem sua liderança, Deus não permitiu que eles continuassem perfeitos. Então, começaram a degenerar-se até que finalmente envelheceram e morreram. E nós, segundo as leis da genética, herdamos deles a imperfeição e a morte. - Romanos 5:12.A soberania é a questão principalPor que Deus não destruiu Adão e Eva e começou tudo de novo com outro casal humano? porque a soberania universal de Deus, ou seja, seu direito de governar, foi ameaçada. A questão era: Quem tem o direito de governar, e que lei é a certa? E por extensão:Os homens poderiam sair-se melhor se não fossem governados por Deus? por ele dar tempo para os humanos governarem a si mesmos com absoluta independência, ficaria definitivamente provado em que condições eles viveriam melhor: com a orientação divina ou sem ela. O tempo concedido tinha de ser o suficiente para os homens experimentarem todos os tipos de administração - política, social, econômica e religiosa -, todas elas sem a interferência de Deus.Qual é o resultado? Milhares de anos de História humana dão evidência de que o sofrimento reina com poder cada vez maior. No século passado, a humanidade vivenciou o pior sofrimento de todos. Milhões de pessoas foram mortas no Holocausto. Mais de 100 milhões morreram em guerras. O crime e a violência se alastraram. O consumo de drogas tomou proporções epidêmicas. Doenças sexualmente transmissíveis continuam se propagando. Milhares morrem todos os anos de fome e de doenças. A vida familiar e os valores morais se desintegraram em toda parte. Nenhum governo humano tem a solução para esses problemas, que dirá acabar com a velhice, a doença e a morte.Quando o fim vier, quem sobreviverá? A Bíblia responde: "Os retos são os que residirão na terra e os inculpes são os que remanescerão nela. Quanto aos iníquos, serão decepados da própria terra." (Provérbios 2:21, 22) Os retos são os que aprendem e fazem a vontade de Jeová. Jesus Cristo disse: "Isto significa vida eterna, que absorvam conhecimento de ti, o único Deus Verdadeiro, e daquele que enviaste, Jesus Cristo." (João 17:3) De fato, "o mundo está passando ... ".. mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre". - 1 João 2:17.
Folheto de testemunhas de Jeová com a belíssima ilustração na capa.
Se eu fosse a ilustradora teria ido mais pelo lado das leis da genética.
Os destaques são meus.
domingo, 18 de setembro de 2011
quinta-feira, 15 de setembro de 2011
Carona
Voltando para terras baronetes, estudante de medicina dirige, artistinha ao seu lado; atrás, dois exatoides-educadores e um autista mudo tímido sei lá que se anulou.
Artista e professores de matemática e física e química discutem questões humanas e a médica - foi ressaltado na estrada o quão admirável era seu ofício, vale lembrar -, entre outras coisas como o sacrifício de não dormir durante plantões, diz que detesta gestantes com suas frescuras e hormônios (embora este último elemento não tenha sido por ela relevado) e que ela, apesar de se abalar um tanto, possui sangue frio e consegue se distanciar emocionalmente. E a emenda "mas sabe, trabalhando na oncologia tá sendo mais pesado; tem um paciente terminal que mexeu demais comigo. Sabe, ele é assim...tipo...como a gente, sabe? Estudante universitário, trabalha... uma metástase terrível. E ele é como a gente, entende? Bonito. Isso me abalou".
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
Resmunguinhos
Quatro espressos tomados com a gravidade e a nostalgia de divorciados. Tremor apenas pela cafeína, um desconforto que só me resta inferências.
Infiro sempre pois é o que resta. Infiro também pois, na busca ingênua por imparcialidade e liberdade metapsicológica, tudo o que se encontra são inferências de outrem.
Comigo é tido sem quando na realidade foi com. Depois o mal-estar pela verdade de que arre!, que saco isso tudo, que falta de paciência e que preguiça dessa tentativa besta de fragmentação para não encarar o luto.
Luto é preto no ocidente, mais bonito vestir branco ou não vestir nada.
Encontro monógamo é já encontro de mais de seis, já é coisa pra cacete. Completude é difícil, não projetar também. Não inferir, mais difícil ainda.
Daí sonhar com atores, com o futebol já falecido e com gravidez.
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
Escapado pelas pregas
Aprendizados admiráveis dos últimos tempos, a facilidade no adeus, o enrijecimento, sem choro quando é bobagem, sair da zona de conforto quando possível; e a dura verdade de que afeto per se não basta.
Agora sair do vício e reaprender; não dizer adeus com tanta facilidade, malear, umedecer, aprender a se manter um pouco que seja no conforto. Afeto continuará não bastando per se.
sexta-feira, 2 de setembro de 2011
A falta de paciência é tão evidente quanto disseminada.
A recorrência de felinos me subjugando foi registrada aqui mesmo, ao longo de mais de um ano. Agora, quando apareceram leões neste último sonho, logo após encontrar vísceras de amigos queridos num banho da estética gore (com mais uma vez a motosserra presente), a paciência é tão pouca que abro a porta, mando-os para fora do recinto e eles obedecem, de cabeça baixa e rabo entre as pernas, e somem.
terça-feira, 30 de agosto de 2011
Pierre Reverdy
A poesia foi sempre a consequência do mal-estar que certos seres, entre os mais, experimentam, e num grau mais intenso que todos os outros seres, ao contacto com o real, com o inflexível real, uma tentativa de reduzir este real a qualquer coisa de dúctil, de flexível, que se possa formar, transformar e estreitar à sua vontade. A imagem é, por excelência, o meio de apropriação do real, com vista a reduzi-lo a proporções plenamente assimiláveis às faculdades do homem. É o acto mágico de transmutação do real exterior em real interior... A imagem é uma criação pura do espírito. Ela não pode nascer de uma comparação, mas da aproximação de duas realidades mais ou menos afastadas. Quanto mais as relações das duas realidades aproximadas forem longínquas, tanto mais a imagem será forte, tanto mais ela terá potência emotiva e realidade poética. Se os sentidos aprovam totalmente a imagem, matam-na no espírito. A poesia não está na vida nem nas coisas - é o que fazeis dela e o que lhe acrescentais.De resto, ele (o poeta) não conta as suas viagens, não sabe descrever os países que viu. Ele nada viu, talvez, e quando o olham, com medo de que o interroguem, baixa os olhos ou levanta-os para o céu onde outras nuvens se esvaem. O que importa ao poeta é chegar a pôr a nu o que nele há de mais desconhecido, de mais secreto, de mais oculto, de mais difícil de descobrir, de único. E se não se enganar no caminho, chegará em breve ao mais simples... E esta passagem da emoção bruta, pesadamente sensível ou moral, ao plano estético onde, sem nada perder do seu valor humano, elevando-se a uma escala superior, ela se alija do seu peso de terra e de carne, se depura e se liberta de tal sorte que passa de sofrimento do coração a gozo inefável do espírito, isso é a poesia.
Tradução de António Ramos Rosa
segunda-feira, 29 de agosto de 2011
Revelatio, II
Nunca houvera o decifrar;
a Esfinge, pobre coitada, morreu de azia e indigestão.
E a solenidade pra puta que pariu.
sábado, 20 de agosto de 2011
Resmungo
Era sonho e eu ai que saco escrever bolinha.
Daí só diagramas de espectro e acordei ai que cacete.
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
Ato falho
A lembrança repentina de que Joel nunca me chamou analítica: disse-me crítica.
E os cambojanos que "same same but different"
segunda-feira, 8 de agosto de 2011
As Rosas com Bolores, de A.L. também
Tenho sempre perto de mim
geralmente na minha mesa de cabeceira
um ramo de rosas
todas as manhãs a primeira coisa
que faço quando acordo
é observar atentamente as rosas
a ver se algum bolor poisou
na pele das rosas
quando isto acontece
é muito raro
mas eu gosto de coisas preciosas
e sou paciente
deixo de dormir
para observar o crescimento
desigual e lento do bolor
a pouco e pouco o bolor
vai cobrindo a pele da rosa
ou antes
alimentando-se da pele da rosa
adquire o feitio da rosa
mas a pele da rosa
não está por baixo do bolor
desapareceu
é preciso estar sempre atenta
porque no instante em que
o bolor não pode alastrar mais
a não ser alastrando-se sobre
si próprio
e alimentando-se de si próprio
ou seja suicidando-se
naquele acto de infinito amor
por si próprio
que é afinal todo o suicídio
a rosa pode andar pelos seus pés
antes de ela partir
beijo-a na boca
depois ela parte
e desaparece para sempre de minha vida
então eu vou dormir
porque estou muito cansada
as rosas com bolores cansam-me
de Adília Lopes
UMA MULHER
bêbada prima
quer?
uma chávena de chá? é muito mais ordinária
mais açúcar prima? do que prima
um homem
está bem assim? bêbado
quarta-feira, 3 de agosto de 2011
quinta-feira, 28 de julho de 2011
terça-feira, 26 de julho de 2011
Um sonho de narrativa-descarrego, com flores como a cauda do pavão albino (que, sem esta, é a pavoa que até cães confundem com faisoa) cerceando o universo do absurdo. Mente insone resiste até ao dopo, a consciência sussurra "Sofia, anti-histamínico resseca massa cinzenta", que daí acordo, bebo um litro d'água e volto a dormir.
Ela me apareceu e nem pude me sentar ao seu lado, sabendo consciente e inconsciente que está morta. "É como se o momento antes da viagem, do carro, Sofia. Ela já sabe o que vai acontecer" ao que fiz cara de choro e de saudade. Fazia muito tempo que não fazia-me visita.
Quiçá uma bronca materna silenciosa e preocupada.
Foi também alguns avisos de "estou morta e cá apareço mas tem gente que não o merece" e de que o século vinteum permite transposições simbólico-gestuais às virtualidades, por mais que se resista e que se queira cegar.
Daí não mais resisto; usufruo e sacio.
Inventário perdido
- Um sachê artesanal de recheio tsuru
- Uma lata de sachês de chás, industriais, sortidos
- Uma foto 3,5 x 4,5 cm
- Ocidentalismo (qu'inda crê na queima de registro como queima de verdades e feituras)
domingo, 17 de julho de 2011
Advertência, de Manuel Filipe
Dizem-me distante da terra
e, qual judeu errante,
não pude criar raízes
(leia-se amigos
confrontos
países).
Que não vos espante
me sejam tão fáceis
os adeus.
quarta-feira, 13 de julho de 2011
Notificação
Veio dizer que "vim-te dizer que sabe, Chico Buarque apesar de bater na mulher e ser cafajeste tinha muita razão e o Edu Lobo, com aquele sorriso imenso, também.
E é culpa só do universo, mas o cristão sou eu.
Eu não conheci teu irmão, mas tenho certeza absoluta de que ele é meio zarolho.
Tchau"
A intuição me trouxe dois olhinhos antes e eu só disse "ok, muito boa sorte e tchau" sem ironia nem primazia.
Intuição acatada redige nota de falecimento bem antes, digere antes - próprio rabo já em digestão.
Transcrição II
Ainda não entendo o que se passou. Eu confusa e de guarda baixa - na marra - após um dia esquisitíssimo. Confundiu-me seu jeito demasiadamente assertivo, agressivo, com contrastes de cuidado e algum interesse bizarro.
Faz sentido a preguiça que ele sentia de tudo o que me era importante naquele momento - e é ainda - e que a tecnologia não tivesse nunca me estimulado em tanto, mas inegável a tensão que se travou nisto tudo.
Nas cobertas do quarto de hóspedes, na cama que ele arrumou para mim. Este gesto já me foi estranho, pois sua asserção toda e sua atitude - programadora e agressiva - me fariam pensar que o não arrumar da cama seria estratégia indutiva. Eu passava frio e estava com a mesma roupa há muitas horas. Esperei que saísse do banho e, quando passou pela porta aberta, pedi uma camiseta de manga longa. Buscou e me entregou uma, inda de toalha, e parou à porta. Agradeci, um alguinho envergonhada, coloquei por cima da roupa. A camiseta era da altura de minha saia e afirmei que "você não vê problema, né?" emendando no abaixar dela.
Ele parado, à porta, de toalha, apenas olhando. Olhando.
Agradeci mais vezes, me enfiei debaixo das cobertas, ele deu boa noite e encostou a porta. Não entendi este dia, não o entendi, como me derrubou e não reclamou prêmio. Tampouco entendi seu olhar, de toalha, a me fitar e fitar apenas.
A. M., sobre C.G.J.
Se o nosso pensamento e as nossas ações no mundo pudessem levar em conta o mistério - uma espécie de reserva de sentido que o homem não acessa - com certeza seríamos culturalmente bem diferentes; seríamos, como discute R. Safranski, românticos. Essa "reserva de sentido" impõe um senão à claridade, à saturação, ao esgotamento de todos os processos. Sempre sobra um senão, sempre um senão. Levar em conta o mistério transforma completamente nosso pensamento e nossa ação no mundo, pois que o homem deixa de estar sozinho, deixa de contar consigo mesmo e só consigo mesmo. O homem já não se basta![...] o homem, vindo do não-ser, vem ao mundo com o que poderíamos chamar de potencial herdado, e esse potencial herdado se revela - muito palidamente - através de sentido e significado. Esse sentido e significado potencial não se esgota ao longo de toda a travessia humana antes que, de novo, o homem passe para o não-ser, quando, então, sua travessia chega ao fim.Esse potencial herdado, esse a priori de sentido e significado, essa reserva de sentido antecede o mundo intersubjetivo, muito embora, obviamente, só se revele através desse mundo intersubjetivo, vale dizer, na relação com o outro.
(Em negrito é destaque meu)
sexta-feira, 8 de julho de 2011
de Luís García Montero; tradução de Jorge Sousa Braga
Tu chamas-me, amor, eu apanho um táxi,
cruzo a desmedida realidade
de fevereiro para ver-te,
o mundo transitório que me oferece
no assento de trás
uma oculta abóbada de sonhos,
luzes intermitentes como conversas,
letreiros acesos na brisa,
que não são destino,
mas que estão escritos por cima de nós.
Eu sei que as tuas palavras não terão
esse tom luxuoso, que os ares
inquietos do teu cabelo
guardarão a nostalgia artificial
do sótão sem luz onde me esperas,
e que por fim de manhã
ao acordar-te,
entre esquecimentos a meias e detalhes
fora de contexto,
terás piedade ou medo de ti mesma,
vergonha ou dignidade, incerteza
e talvez o luxurioso mal-estar,
o golpe que nos deixam
as histórias contadas numa noite de insónia.
Mas também sabemos que seria
pior e mais custoso
levá-las a casa, não esconder o seu cadáver
no fumo dum bar.
Eu venho sem idiomas desde a minha solidão,
e sem idiomas vou até à tua.
Não há nada a dizer,
mas suponho
que falaremos nus sobre isto,
pouco depois, tirando-lhe importância,
avivando os ritmos do passado,
as coisas que estão longe
e que já não nos doem.
cruzo a desmedida realidade
de fevereiro para ver-te,
o mundo transitório que me oferece
no assento de trás
uma oculta abóbada de sonhos,
luzes intermitentes como conversas,
letreiros acesos na brisa,
que não são destino,
mas que estão escritos por cima de nós.
Eu sei que as tuas palavras não terão
esse tom luxuoso, que os ares
inquietos do teu cabelo
guardarão a nostalgia artificial
do sótão sem luz onde me esperas,
e que por fim de manhã
ao acordar-te,
entre esquecimentos a meias e detalhes
fora de contexto,
terás piedade ou medo de ti mesma,
vergonha ou dignidade, incerteza
e talvez o luxurioso mal-estar,
o golpe que nos deixam
as histórias contadas numa noite de insónia.
Mas também sabemos que seria
pior e mais custoso
levá-las a casa, não esconder o seu cadáver
no fumo dum bar.
Eu venho sem idiomas desde a minha solidão,
e sem idiomas vou até à tua.
Não há nada a dizer,
mas suponho
que falaremos nus sobre isto,
pouco depois, tirando-lhe importância,
avivando os ritmos do passado,
as coisas que estão longe
e que já não nos doem.
quarta-feira, 6 de julho de 2011
Fábula estúpida
Uróboro serpente sapeca cutuca a esfinge olha! Eu pratico autofagia!
Esfinge mulher orgulhosa pueriliza, rá, eu também posso.
Dar a face a bater implica o tapa.
Viver é perigoso.
domingo, 3 de julho de 2011
Nebulização
Provê-me fôlego dos dias que vêm
mesmo agora fechando chiando asmando.
Prende-me os braços com ternura franca nos dentes
- e no bigode -
quando comprime minhas costelas com as tuas
e brinco de evitar que desça aonde intenta
o teu bigode
ralo.
Rio sonora, abafo, e pausas broncodilatadoras:
gemidos roucos; aspirados; baixinhos; Berotec; Atrovent;
- acho que é o toque o estoura-peito.
As matutinidades transviadas, taquicardia, a sinfonia respiratória
que é o sono nosso:
continuam noutros dias.
Tua cama é minha ruína.
terça-feira, 28 de junho de 2011
Mudança
Máscara, carreto, Björk Brahma e bróderes, Radiohead, doações e desfazeduras.
Tchau pro Miguel que cresceu, tchau pra senhorinha isquêmica que xinga bem feio minha insônia barulhenta e tchau pro vizinho de trás que fica tacando veneno nas minhas laranjinhas.
Não são mais minhas.
Mas é sacanagem mesmo assim.
segunda-feira, 13 de junho de 2011
O Joel tinha me dito isso. Músico é intuitivo demais em seu ofício. "Você é bastante analítica, acho que literatura tem muito a ver mesmo".
Joel é psiquiatra, psicanalista junguiano e violinista - era de orquestra e largou, ele também não gostava do ambiente de mão-de-obra musical.
Meu problema com o Joel é que, fascinada pelo mundo junguiano e me sentindo tão identificada, perguntava muito sobre ele. Sobre técnicas de psicanálise. Discutimos a importância de minhas xilogravuras para a sessão mas não lhe mostrei nada delas. Disse que eu anotasse sonhos, e eu o fiz - sem nunca mostrá-lo. Ele me contou da caixa de areia e eu saquei que o lance da narrativa tinha muito a ver com sonhos, com o consciente bem presente. Nunca fiz caixa de areia.
Enquanto ele falava, vi as miniaturas. Eu montei sozinha e em mente minha caixa, com a escolha das miniaturas pelo olhar e essa sessão me fez pensar por muitos meses. E me fez manipular muita coisa interna. Foi importante.
Quis o Joel como mestre, não como terapeuta ou analista. Queria que ele me falasse sobre Jung e Freud, que me emprestasse livros. Por ele ser músico não sentia peso nem necessidade de falar sobre música. Ela é meu artifício idiota com quem não é artista. Quis crer que Joel era eu, a intuição e a análise - versus? conjunto?
Nunca paguei Joel pelas duas únicas sessões, estou inadimplente. Pagá-lo-ei, porém não sei se a ele consigo voltar. Minhas projeções assustam e me desfocam.
Pós-Poema, de Murilo Mendes
O anteontem - não do tempo mas de mim -
Sorri sem jeito
E fica nos arredores do que vai acontecer
Como menino que pela primeira vez põe calça comprida.
Não se trata de ilusão, queixa ou lamento,
Trata-se de substituir o lado pelo centro.
O que é da pedra também pode ser do ar.
O que é da caveira pertence ao corpo:
Não se trata de ser ou não ser,
Trata-se de ser e não ser.
(in Poesia Liberdade)
terça-feira, 7 de junho de 2011
Pontos
"uma forma de resistência às diluições grosseiras da sensibilidade em tempos hostis de pós-modernismo triunfante"
"nem herdeiro da visualidade, nem do espontaneísmo marginal, mas também não mera cria universitária, nascido do recesso da erudição"
segunda-feira, 6 de junho de 2011
Chimera
Chamei-a assim prévia à presença pequerrucha.
Sabia-a preta e manchas brancas
hoje tintas terracota.
Verdade que lhe falta fogo das ventas e
algo de monstruoso.
Destrói ao despropósito ao desajeito como se seu destino
de genealogia incerta e especulativa
qual mito.
O hibridismo é d'Eu co'a humanidade dos bichos,
cabra castrada mãe de enigmas
de duas avelãs que, à porta, pedem para entrar
carregando consigo toda minha autocrítica.
Poderosa a carrapenta.
Sequer esbravejo ao flagrá-la enterrando miudezas minhas no quintal:
rio e digo que é uma vaca.
quinta-feira, 2 de junho de 2011
Transcrição
Este caderno foi um dos primeiros que fiz. Se não me engano foi o segundo. Usei papéis sulfite mui velhos e surrados, estavam numa pasta que me lembro datar de mais ou menos 1999. Estão frágeis e ruins, rasgam fácil. Tinha feito, desde o anteprojeto (e desde a procura por papéis amarelados), pra dar de presente pro João. Porque ele é poeta; e curte a coisa boba da aura do poeta, o cigarro, o recitar patético na estação de trem, uma decadência boba que mascara maliciosa uma vulnerabilidade muito mais legítima.
No meio do caderno espalhei, esparsos, trechos dum de seus poemas preferidos do Manuel de Freitas - que eu acho tão sem graça! Coloquei o Madrigal tão engraçadinho do Bandeira pra por algo de mim em forma de piada. E no fim pus um Murilo Mendes escondido, como se uma charada gelada escondida. A ideia era aparecer de surpresa onde ele trabalha para dar o caderno. E não tinha nada nisto, era pra ser uma singeleza bem besta prum amigo besta. E bonito.
Ele me irrita absurdos.
João me enche o saco. Arranquei o poema verborrágico luso do caderno, dobrei e selei o cristal frio fogo fêmina muriliano. Eu não sou aquilo e parei de querer ser.
Minha singeleza planejada era boba e despretensiosa, e ele fez de tudo pra que eu desistisse. O João é muito chato, na real.
Eu desisti e me apropriei deste caderninho que ficou uns três meses no chão, esquecido, como ele.
terça-feira, 31 de maio de 2011
Silhueta
Oito olhos quatro míopes. Somam uns onze graus.
Um par metálico com arestas, outro arredondado grande preto.
Penduricalhos no chão, os desenhos na pele.
A poesia escancarada.
Muita boca, muito lábio.
Sem lábia.
Farinha.
Um só saco.
sábado, 28 de maio de 2011
Arrulho
Não é o decifrar que importa, tampouco o embate ardiloso que rende e derrota. O que importa é a não necessidade de enigmas ou de guarda alguma - nem baixa nem alta.
Ei-la!
Ei-lo.
Novíssimo Orfeu, de Murilo Mendes
Vou onde a poesia me chama.
O amor é minha biografia,
Texto de argila e fogo.
Aves contemporâneas
Largam do meu peito
Levando recado aos homens.
O mundo alegórico se esvai,
Fica esta substância de luta
De onde se descortina a eternidade.
A estrela azul familiar
Vira as costas, foi-se embora!
A poesia sopra onde quer.
terça-feira, 24 de maio de 2011
Sófocles deu a charada errada
O nome da autora tem recheio grande; os da ponta formam Marcia Bacha.
(Mas pode falar que é Crowley também)
A Esfinge fascinante e erótica que canta e seduz, a Esfinge "ávida de sangue e de amor" foi sepultada pela Esfinge questionadora, uma ogra perguntadora que examina. A Esfinge intelectual neutralizou o fascínio do monstro-fêmea que deixou de ser uma tentação, perdeu seu poder de sedução e seu caráter erótico para se tornar um flagelo caracterizado pela ameaça de devoração pelos enigmas que coloca.(...)Édipo resolve os enigmas triunfando sobre seu encanto, sobre o feitiço do canto sedutor como o das sereias que sai da boca da "cruel cantora". Da boca deste "monstro-fêmea ávido de sangue e de amor", fantasia do reino materno originário, brota o enigma, simultaneamente canção e teoria.
(...) É muito diferente a situação daquele a quem se dirige um canto ou um enigma: pode-se resolver um enigma, mas não se pode resolver um canto. Pode-se ceder a seu feitiço ou tomar distância dele, ou recorrer ao procedimento mágico que consiste, como Ulisses, em ouvir o canto numa posição imobilizada.
domingo, 22 de maio de 2011
Autoclave
Um álbum pequeno de fotos, mas cheio de stickers dispostos dum jeito infantil. Uma caneta pequena, de corpo de bichinhos e tinta rosa brilhante. Estavam ambos os objetos amassados no cruzamento, na vala, no bairro sem calçada onde pedestres e ciclistas e cachorros só andam no meio da rua.
Meu fascínio oriundo de toda a especulação acerca do conjunto. Disseram-me que "a menina deve ter deixado cair e um carro passou por cima", mas minha certeza era - é - de que o carro passou por cima dela e, no desespero do socorro, ficou a coleção de stickers com a caneta, tudo amassado - como a criança.
Corroborou a sandália única noutra rua, perdida, de adulta e de salto plataforma, semanas depois. Cenas similares à anterior surgidas, até mais pesadas.
Ecoou a pergunta do rapaz nipônico de certa vez, "você tem esse caráter mórbido ou é só em sonhos?"
Meu fascínio oriundo de toda a especulação acerca do conjunto. Disseram-me que "a menina deve ter deixado cair e um carro passou por cima", mas minha certeza era - é - de que o carro passou por cima dela e, no desespero do socorro, ficou a coleção de stickers com a caneta, tudo amassado - como a criança.
Corroborou a sandália única noutra rua, perdida, de adulta e de salto plataforma, semanas depois. Cenas similares à anterior surgidas, até mais pesadas.
Ecoou a pergunta do rapaz nipônico de certa vez, "você tem esse caráter mórbido ou é só em sonhos?"
sexta-feira, 20 de maio de 2011
quarta-feira, 18 de maio de 2011
segunda-feira, 16 de maio de 2011
Shesepankh
Ctônica esfinge patética em silêncio e insônia autopenitentes.
Pondera a resignação.
Inda espera autofagia; unus mundus.
sábado, 14 de maio de 2011
Teth
Mais um ciclo e, segundo a Grande Besta, entrei no XI; torturei um dos marrecos até que se deformou, não doeu mais. Anda todo torto, mas anda; e faz barulho de marreco, só um pouco mais rouco. Rachado.
Foi mais um ano e foi-se junto a paciência para puerilidades e olhares acadêmicos e destratos. Voltou o horror burocrático e volta e meia inda choro de orfandade. Os homens continuam se encantando pelas bailarinas - continuarão -, e eu continuo sendo efemeridade curiosa e excêntrica. Meus pontos altos, dizem: "Você é engraçada"; "Você é tão simpática!"
Parafusos a menos como elogio, bom caminho. O cérebro não incha como de pinscher de crânio reduzido, consigo evitar homicídios.
O modus operandi permanece ignoto, por falta de interesse decerto. Nas raras exceções faltou aptidão.
Ai, que bobagem!
Ridículo que continue a adorar distribuir e formular gracejos, ora anônimos ora com frios escancarados no estômago, e algumas singelezas, tocando a campainha e fugindo. E dando o carinho hermenêutico a cada gestual.
Continuo.
Por fim, troquei Miró por Jeremy Blake.
quarta-feira, 4 de maio de 2011
domingo, 1 de maio de 2011
quarta-feira, 27 de abril de 2011
Memória de Jean Cocteau, de António Barahona
O amor está tão perto de ser ódio.
Não dispenso a cratera dos boémios,
onde se encontram místicos e génios
unidos ao distúrbio.
O ódio está tão perto do amor.
Não dispenso a cratera d'homens santos,
onde se encontram bons boémios bentos
bem unidos à dor.
Os extremos não se tocam: fundem-
-se até se tornarem num só traço,
muito cingido, em truculento abraço
d'infinita vertigem.
Dificuldade de ser: não mentir,
não escrever mais poemas, não falar;
apenas, ao de leve, expirar
e morrer a sorrir.
domingo, 24 de abril de 2011
sexta-feira, 8 de abril de 2011
sexta-feira, 1 de abril de 2011
Confessional da baronesa prometida ao duque lusófono
Aprazem-me tuas narrativas. Algumas apenas, é bem verdade.
A fluidez prosaica tua mântrica me acompanha ao
dia, à mente, num desenrolar de leitmotiv wagneriano
turvado por vezes ao ouvido nos cromatismos. Mas
faz-me delinear teu maxilar e teu nariz,
tão atraentes e hostis, finos, e
teu olhar soslaiado de quem quer por demais
ser algo que não esse meninão.
Traço-te a meu bel prazer, ciente deste absurdo.
Foram quatro as garrafas de Lambrusco
que me fizeram te sentir tão dentro e fundo.
Minhas fantasias são das coisas mais bonitas.
Fantaseio que sejas torto, que todo problemático,
com dificuldades do ego e ranzinzezes;
que me faças desgostosa e que assim
deixes-me inda mais desejosa.
Por fim que a mim pertença tua criptografia passional,
que deixaste-me ser teu objeto de dubiedade, estranheza,
de lascívia da cor da tua cidade.
Que estejas comigo a brincar
dando de comer aos nossos "quem é você".
quarta-feira, 30 de março de 2011
Recorde
Foi recorde tanto tempo dormindo tão bem. Mas a insônia sempre vai dar o ar de sua graça, cedo ou tarde.
sábado, 26 de março de 2011
quarta-feira, 23 de março de 2011
Dois anos
Dois anos de saudade absurda, de muita presença, de muita ternura e um orgulho fortíssimo em ter tido uma mãe assim.
E continuamos discutindo até hoje. Ela continua a implorar que eu tenha um quarto mais organizado e eu retruco que me encontro na minha bagunça. Mas eu sei que ela sorriria ao ver minhas sinceras tentativas em mantê-lo melhor. Outro dia comprei a sobremesa, dessas saudáveis prontas de mercado, que ela mais gostava, só porque ela gostava tanto. Como em retribuição aos caros pacotes de sembei que ela me dava e que hoje, sozinha, não posso comprar. A risada igual, a franja igualmente ondulada, as saias de cintura alta profetizadas para a pré-adolescente, "Sofia, não fale mal da cintura alta. Daqui uns anos você vai achar lindo e essas minhas roupas antigas serão muito visadas". O jeito parecido de falar, desbocado e alto, e até a esparramada, igual, na poltrona e no sofá.
Fico tentando, sem sucesso, encontrar os olhões libaneses dela nos meus. E queria muito o gosto que ela tinha pelo ensino formal, o prazer que sentia em tirar 10 em tudo e ainda ter dois diplomas e um baita TCC que arrancou elogios tão prezados.
A saudade em seu crescente estabelece um ritmo saudável e ciente.
domingo, 20 de março de 2011
segunda-feira, 14 de março de 2011
Hotel Insomnia, de Charles Simic (ou Minha saudade megalopolitana)
I liked my little hole,
Its window facing a brick wall.
Next door there was a piano.
A few evenings a month
a crippled old man came to play
"My Blue Heaven".
Mostly, though, it was quiet.
Each room with its spider in heavy overcoat
Catching his fly with a web
Of cigarette smoke and revery.
So dark,
I could not see my face in the shaving mirror.
At 5 A.M. the sound of bare feet upstairs.
The "Gypsy" fortuneteller,
Whose storefront is on the corner,
Going to pee after a night of love.
Once, too, the sound of a child sobbing.
So near it was, I thought
For a moment, I was sobbing myself.
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
Carta, de Isabel Câmara
Olha eu te desejo
tanto que perdi
o recado.
Nada temo, tremo!
Sou poeta devassa
adorando a tua raça.
Lovely & lonely bird
of my Youth, tell
me how to reach
The South of your Mouth.
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
Energéticos parecem Prozac e afins diluídos, liquefeitos, enlatados perfeitinhos em grau homeopático de potabilidade para pessoinhas comuns não depressivas - mesmo que depressão seja tão comum.
Insônia voluntária é gostosa, oxe, e uma latinha além dos chás consolida a companhia e muleta perfeitas para a recepção desse alinhamento arretado de marte com meu natal na oito e esse saturno retrógado na minha casa três.
sábado, 5 de fevereiro de 2011
Sobre bagunças
Eu nunca chamei uma diarista, faxineira, o que fosse. Em épocas duras meu quarto já esteve de cabeça para baixo e adiei a limpeza do banheiro por diversos motivos. Mas não vejo sentido em uma outra pessoa - mesmo que contratada - arrumar e limpar a bagunça dos outros. Não a minha. Minha bagunça é tão íntima que gosto de arrumá-la sozinha. Em geral ouço o mesmo disco de 55 do Duke Ellington enquanto o faço, e depois seguem os mesmos três do Chet Baker de sempre. É um ritual. Tem sempre um incenso de massala no fim.
Posso até aceitar uma ajudinha vez ou outra, e uma companhia enquanto o faço por vezes cai bem. Mas difícil deixar que alguém tente arrumar por mim, para mim.
Em qualquer nível.
domingo, 30 de janeiro de 2011
sábado, 29 de janeiro de 2011
Chávenas de espresso
Sugeri que tomássemos um café.
Com você sempre foram os chás, divididos, presenteados, tomados com gosto por ambos. Mas sugeri um café.
Crava-se costume meu e nunca o faço direito - não bebo café. Já se transformou em garrafas de cerveja sem forro para meu estômago com um, já virou um espresso com água gaseificada de outro, comigo na sem gás e sem gelo apenas. Também já foram dois espressos do mesmo virados enquanto eu não consumia nada, só chorava; com este já até foi um Häagen-Dazs na Oscar Freire, e eu me recusei a experimentar o sorvete ou consumir o que fosse, só queria entregar o Monteverdi que eu lhe tinha comprado. O primeiro de todos foi uma latinha de coca-cola juvenil, que estranhei por seus oito anos mais velhos que meus quase quinze de então, e uma garrafinha duns sofridos e caros trezentos e poucos mililitros de água radioativa que pedi envergonhada.
Você foi o último, e eu falei em café. Não lembrava da coisa "meio filme indie" que tinha sem querer começado um tempo atrás. Não intentei continuar uma saga nem nada. Fui sincera, como fora com os outros e em outros tempos. Num para confrontar a declaração dum amor silencioso e adolescente, num para desmitificar uma criatura lindíssima; num para aproveitarmos a carona dada após sairmos da faculdade, bem tarde; noutro, com o mesmo, para que me desse o despejo e o subsequente para expressar o quanto me fazia falta.
Fui sincera, comi três chipas, contei que vinha gostando muito de Björk e te disse que parasse de aparecer em meus sonhos - mesmo transfigurado, como vinha sendo, incomoda. Você tomou um espresso, tão atípico dos nossos tempos juntos. Não houve verborreia, não houve a fluência de outrora. Fez uma expressão tão tua que tão bem conheço, pegou em minha mão e eu senti que você tremeu ao fazê-lo. Disjuntamos as mãos duma só vez e pareceu-me que o fizemos tão brusca e rapidamente para evitar qualquer distúrbio. Pensa-lo-ia, não tivesse você tremido um pouco, parecendo já perturbado.
Confundiu-me um pouco o tremor e por ele especulei e me confundi comigo mesma.
Bobagem; não te chamei para uns chás, como antes: te chamei para tomar um café. E foi o que você fez, como quem veste em situação diplomática a bandeira de seu estado independente.
Onirisminhos
Metaforinhas, fabulizações, escancararidades, transparências, fosquismos, cruezas, devorado tudo pelos tigres - siberianos, de bengala, brancos sem rajas - que insistem em aparecer em meus sonhos, bufando a respiração molhada, cheios da bufeira felídea, em cima de mim - eu imóvel, desesperada, impotente, rendida e subjugada. Quando não devorada junto.
*
Sonhei hoje com um hipotético professor com um sério distúrbio, com uma mania insana por pés. E no sonho eu me livrava das cenas perturbadoras do professor que interrompia a aula para lamber e chupar uma havaiana lilás d'alguma aluna ausente imergindo em pensamentos para buscar termos - Podômano? Podomaníaco? Podólatra? Podofílico? Podófilo? -, ignorando significações, por puro prazer estético. No fim é sempre esse hedonisminho singular que sobrevive, mesmo que nele esteja incluso o apocalipse.
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Comi no Restaurante Universitário, aquele da bandeja grande no melhor design presidiário. No almoço, hoje, de vestido vermelho, óculos de cor borgonha. Fui só, fiz-me surda no som das falas - eufóricas! Céus, é janeiro e o calor me faz pingar! - e na fila vi o rapaz atrás de mim me observar estarrecida e ininterruptamente. Apesar da miopia corrigida pelos óculos fiz-me inda mais míope e não prestei atenção em mais nada que não o pedaço pesado de melancia que tentava se equilibrar num cantinho do recipiente metálico entortado.
Até tirei meus óculos, já que nunca consegui comer usando-os. Olhava para qualquer ponto de fuga, alternando com uma leitura, dificultada por ruídos, do último livro aqui citado - cuja capa traz uma fotocomposição bem vermelha - e, quando brevemente voltava a consciência ao salão, percebia de visão lateral soslaiada que um rapaz sentado só me encarava. Meu estado neutralizava a mania de perseguição e também o complexo de invisibilidade e era claro que era comigo. Mastigava, levava o garfo à boca, fazia tudo, da outra mesa à minha esquerda, com o pescoço virado para minha direção. Quando resolvi ver quem cargas d'água essa pessoa era e a fitei, reconheci o rapaz da fila. Sua bandeja era quase vazia, a minha ainda pela metade.
Demorei-me muito, mastigando devagar pela bochecha internamente machucada e pela apetência reduzida, tão duro de quase cru estava o arroz integral. A melancia não me descia mais, o rapaz a me olhar tanto sem sobrar nada a comer, larguei atipicamente um bocado de comida ao desperdício e de súbito me levantei. Ele ridiculamente se apressou e levantou junto! Que desespero aquilo me deu! Dirigi-me enfim ao banco, tão longe, atravessando tantos institutos e prédios naquele sol infernal. Uns sete minutos de caminhada e lá estava o rapazola a me seguir. Imagino que quisesse apenas saber meu Instituto, ainda que estivesse bem estampado na bolsa que carregava comigo. Só me lembro de, no banco, não o ver mais - não sei se me seguiu até o fim ou se desistiu um pouco antes, quando viu que o caminho era longo, o sol fortíssimo e de avermelhar e que eu o reparara.
Achei quase gracioso ter ganho um stalker assim, sem mais nem menos. Não descarto todas as maiores coincidências do mundo mais a minha mania de perseguição me causar alucinações, mas vá lá.
O que tira a graciosidade da coisa é saber que, se soubesse ou pudesse observar o interno, essa bagunça que sou e estou, jamais me seguiria, sequer me olharia o moçoilo. Tomaria uma distância segura, como fazem os majoritários (e deveriam os da minoria), e no máximo me observaria por curiosidade excêntrica.
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Pedaços de Photomaton & Vox, Herberto Helder
(photomaton)
Até quando pode a memória, e quanto pode, sou o actor e espectador cúmplice de uma vida perturbada, dramática e irónica. O pouco que percebo dessa massa teatral caótica pode inscrever-se na pauta de uma interpretação menor. Não compreendo nada.
Pensei que certas virtudes - a astúcia ganha na prova de todas as inspirações da inocência, uma sensibilidade adivinhadora desenvolvida através da indistinção espiritual entre luz e treva - acabariam por conduzir-me a qualquer entendimento.
*
(uma ilha em sketches)
A cabeça do cão continua virada para as águas. Ninguém presume o que vê ou sabe. É um bocado de pedra com a forma de uma cabeça de cão. Apenas intrigante. Está ali. Está inclinada para o abismo de água, para os enigmas.
*
(apostila insular)
A minha visão confiante é a alucinação.
O passado, a memória, a experiência constituem esse fundo de irrealidade que, semelhante a um feixe luminoso, aclara este momento de agora, revela como ele é cheio de surpresa, como já se destina à memória e é já essa incontrolável gramática sonhadora.
Porque:
La volonté pourrait délirer, mais l'incontrôlable rétablit toujours le cours de l'irrealité poétique. (Ribemont-Dessaignes).
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Thais? Presente!
Por Marilene Felinto, na revista Caros Amigos - maio / 2009, nº146
Quando este texto sair - porque a revista é de publicação mensal -, Thais já terá morrido haverá dois meses. E esses tempos de verbo ("terá morrido", "haverá" - futuro do presente composto e futuro do presente simples), parecem não naturais (soam desconexos na leitura) e deveriam ter o nome de "futuro absurdo", não fosse toda a idéia de futuro em si absurda. Como se concebe um "futuro do presente", um "futuro do pretérito"? O tempo presente, diz a gramática, é indivisível; mas o pretérito e o futuro subdividem-se, explica: pode haver pretérito do pretérito, imperfeito e mais-que-perfeito; futuro do presente e futuro do pretérito. Pode-se dizer, portanto, que o tempo presente (o indivisível) é, no estrito senso, a única forma de realidade (Schopenhauer). É isto.
Tiro aqui uma licença poética para escrever sobre Thais e não sobre os outros temas quaisquer que costumo escolher. Deveria começar corrigindo o parágrafo introdutório, mudar para o tempo do leitor (o tempo verbal do momento em que se dá o fato: o presente da leitura, o passado da morte da Thais). E começaria o texto assim: Thais morreu faz dois meses (23 de março de 2009). A escolha inicial, pelo "tempo absurdo", é resultado do impacto que a morte súbita desta pessoa amiga ainda tem sobre mim.
Tiro licença, como se eu pudesse ser um Manuel Bandeira (1886 - 1968), que escreveu dúzias de elegias, poemas ternos e lindos, para os amigos mortos (e para os vivos): "A Mário de Andrade Ausente", "Ovalle", "Olegário Mariano", "...Augusto Frederico Schmidt", "José Claudio", etc etc. Não tenho tantos amigos, e tenho menos ainda a verve poética.
A de Thais foi destas mortes inesperadas (um carro, uma estrada, um choque brutal), que não deixam de provocar um sentimento de inconformismo, de revolta, como se o lógico fosse sempre a vida e não a morte - especialmente de quem ainda não dobrara o cabo das tormentas dos 50 anos (que completaria este ano). E Thais Sauaya Pereira (1959-2009) foi uma espécie de "José Cláudio". Quem foi José Cláudio? Também não sei exatamente (fui eu, foi você): um conhecido (ou amigo ou parente) do poeta pernambucano Manuel Bandeira, que transformou o nome de José Cláudio em poesia e escreveu sobre ele versos magníficos: "O espanto que nos deixaste!/Como fizeste crescer em nós o mistério augusto da morte! (...)".
Não se darão para Thais nomes de ruas nem se construirão para ela espetaculares pontes de homenagem (como se constroem para os grupelhos de direita no poder e seus amigos). Nem Thais, eu acho, desejaria ter seu nome estampado numa ponte. Era insurgente, revolucionária natural, uma força das forças sociais, triunfo da revolução sobre o reacionarismo, uma dessas que ajudou a construir, nos bastidores, um país menos pior chamado Brasil, um lugar de menos desilusão para amigos seus, filhos seus, seus parentes, seu marido. Militante de esquerda desde o Movimento Estudantil na década de 70, contribuiu para desenhar isto que hoje se chama Partido dos Trabalhadores (PT) - tudo sem cargo, tudo no anonimato. Colaborou até mesmo para uma convicção quase impossível: de alguma "resistência ética e grandeza no jornalismo", título do perfil biográfico que escreveu sobre Aloysio Biondi.
O título deste meu texto "Thais? Presente!" tem a ver também com o que ela foi: trata-se da saudação, palavra de ordem (conforme uma amiga em comum lembrou na homenagem íntima que oferecemos a ela), que o MST usa para invocar seus heróis, anônimos ou não, em reuniões.
Entre tantos erros nossos humanos (lembrou outra amiga nossa), Thais parece ter feito tudo certo antes de ir embora: como quem, no poema, toma antes uma consoada (leve refeição noturna, sem carne, que se toma em dia de jejum); como quem vê na morte uma presença "caroável" (que procura ser amável através de palavras ou gestos; afável, gentil, afetuoso); como quem, caralho!, lavrou antes o campo, limpou a casa, pôs a mesa, deixou cada coisa no seu lugar. Como se o poema tivesse sido escrito mesmo para ela.
Consoada
Manuel Bandeira
Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável)
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
-Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.
(OPUS 10)
domingo, 16 de janeiro de 2011
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
Vitis Vinifera, vísceras e a coifa beckettiana
domingo, 9 de janeiro de 2011
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
De derradeirismos
Sonhara sonho prévio à escuta de Petrouchka para começar, inventando sua visualidade, musicalidade e rítmica plausível de Titio Igor.
Noutro posterior, os timbres de Cathy Berberian e Modalys improvisando aos comandos de cores de minha escrita manual.
É este agora o último, com a Sagração sem modificação onírica ou falha de memória, como quem diz 'tchau'?
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