Num período recente me cansei e achei chatíssima a análise do que se é, do que se gosta e do que é verdadeiro de algum eu, por meio de sinais de infância. Ser mais músico pois desde criança gostava de cantar, ser mais médico pois pré-adolescente assistia a vídeos de cirurgia, ser mais poeta porque aprendeu a ler mais cedo que a classe e sempre tirou 10 nas matérias correlatas no colégio, qual série fosse. Como se mais legítimo que aquele que descobre aos 30 e poucos a vocação real, verdadeira, e se dedica a isso com verdade irreprimível e alívio. Como se ter aprendido a ler aos quatro anos e meio desse qualquer caráter especial e destaque, esquecendo de que mesmo o alfabetizado bem tardiamente sabe ler, do mesmo modo. Ou como se um intuitivo apto fosse em resultado melhor que o esforçado que faz exatamente o mesmo, mas levado um tempinho a mais.
Procura por gênios, prodígios, busca incessante por precocidade cognitiva, artística, vocacional, nos outros e em nós mesmos. Buscar incessantemente algo que nos faça especiais, destacados, únicos. E esquecer que em nossa simplicidade somos únicos, e que ser único é algo bom, mas nada de tão extraordinário quanto se pinta. Confundir individuação com narcisismo e egocentrismo.
Achei tão chato que esqueci por um bom tempo traços do que eu era. Resgatei uns anos particulares de minha vida e assuntos que eram mais importantes que tudo. A atenção fugia de algumas coisas que não desaparecem, seria impossível, tão inatas, embora eu achasse superficialmente não ser mais nada daquilo. É engraçado que minha primeira paixão, aos 11 anos, tenha sido o agente Fox Mulder e que hoje, aos 25, meu herói seja Julian Assange.