domingo, 30 de janeiro de 2011

sábado, 29 de janeiro de 2011

Chávenas de espresso

Sugeri que tomássemos um café.
Com você sempre foram os chás, divididos, presenteados, tomados com gosto por ambos. Mas sugeri um café.
Crava-se costume meu e nunca o faço direito - não bebo café. Já se transformou em garrafas de cerveja sem forro para meu estômago com um, já virou um espresso com água gaseificada de outro, comigo na sem gás e sem gelo apenas. Também já foram dois espressos do mesmo virados enquanto eu não consumia nada, só chorava; com este já até foi um Häagen-Dazs na Oscar Freire, e eu me recusei a experimentar o sorvete ou consumir o que fosse, só queria entregar o Monteverdi que eu lhe tinha comprado. O primeiro de todos foi uma latinha de coca-cola juvenil, que estranhei por seus oito anos mais velhos que meus quase quinze de então, e uma garrafinha duns sofridos e caros trezentos e poucos mililitros de água radioativa que pedi envergonhada.
Você foi o último, e eu falei em café. Não lembrava da coisa "meio filme indie" que tinha sem querer começado um tempo atrás. Não intentei continuar uma saga nem nada. Fui sincera, como fora com os outros e em outros tempos. Num para confrontar a declaração dum amor silencioso e adolescente, num para desmitificar uma criatura lindíssima; num para aproveitarmos a carona dada após sairmos da faculdade, bem tarde; noutro, com o mesmo, para que me desse o despejo e o subsequente para expressar o quanto me fazia falta.
Fui sincera, comi três chipas, contei que vinha gostando muito de Björk e te disse que parasse de aparecer em meus sonhos - mesmo transfigurado, como vinha sendo, incomoda. Você tomou um espresso, tão atípico dos nossos tempos juntos. Não houve verborreia, não houve a fluência de outrora. Fez uma expressão tão tua que tão bem conheço, pegou em minha mão e eu senti que você tremeu ao fazê-lo. Disjuntamos as mãos duma só vez e pareceu-me que o fizemos tão brusca e rapidamente para evitar qualquer distúrbio. Pensa-lo-ia, não tivesse você tremido um pouco, parecendo já perturbado.
Confundiu-me um pouco o tremor e por ele especulei e me confundi comigo mesma.
Bobagem; não te chamei para uns chás, como antes: te chamei para tomar um café. E foi o que você fez, como quem veste em situação diplomática a bandeira de seu estado independente.

Não esqueçais

Antes duma Eva terá sempre existido uma Lilith.

Onirisminhos

Metaforinhas, fabulizações, escancararidades, transparências, fosquismos, cruezas, devorado tudo pelos tigres - siberianos, de bengala, brancos sem rajas - que insistem em aparecer em meus sonhos, bufando a respiração molhada, cheios da bufeira felídea, em cima de mim - eu imóvel, desesperada, impotente, rendida e subjugada. Quando não devorada junto.

*

Sonhei hoje com um hipotético professor com um sério distúrbio, com uma mania insana por pés. E no sonho eu me livrava das cenas perturbadoras do professor que interrompia a aula para lamber e chupar uma havaiana lilás d'alguma aluna ausente imergindo em pensamentos para buscar termos - Podômano? Podomaníaco? Podólatra? Podofílico? Podófilo? -, ignorando significações, por puro prazer estético. No fim é sempre esse hedonisminho singular que sobrevive, mesmo que nele esteja incluso o apocalipse.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Comi no Restaurante Universitário, aquele da bandeja grande no melhor design presidiário. No almoço, hoje, de vestido vermelho, óculos de cor borgonha. Fui só, fiz-me surda no som das falas - eufóricas! Céus, é janeiro e o calor me faz pingar! - e na fila vi o rapaz atrás de mim me observar estarrecida e ininterruptamente. Apesar da miopia corrigida pelos óculos fiz-me inda mais míope e não prestei atenção em mais nada que não o pedaço pesado de melancia que tentava se equilibrar num cantinho do recipiente metálico entortado.
Até tirei meus óculos, já que nunca consegui comer usando-os. Olhava para qualquer ponto de fuga, alternando com uma leitura, dificultada por ruídos, do último livro aqui citado - cuja capa traz uma fotocomposição bem vermelha - e, quando brevemente voltava a consciência ao salão, percebia de visão lateral soslaiada que um rapaz sentado só me encarava. Meu estado neutralizava a mania de perseguição e também o complexo de invisibilidade e era claro que era comigo. Mastigava, levava o garfo à boca, fazia tudo, da outra mesa à minha esquerda, com o pescoço virado para minha direção. Quando resolvi ver quem cargas d'água essa pessoa era e a fitei, reconheci o rapaz da fila. Sua bandeja era quase vazia, a minha ainda pela metade.
Demorei-me muito, mastigando devagar pela bochecha internamente machucada e pela apetência reduzida, tão duro de quase cru estava o arroz integral. A melancia não me descia mais, o rapaz a me olhar tanto sem sobrar nada a comer, larguei atipicamente um bocado de comida ao desperdício e de súbito me levantei. Ele ridiculamente se apressou e levantou junto! Que desespero aquilo me deu! Dirigi-me enfim ao banco, tão longe, atravessando tantos institutos e prédios naquele sol infernal. Uns sete minutos de caminhada e lá estava o rapazola a me seguir. Imagino que quisesse apenas saber meu Instituto, ainda que estivesse bem estampado na bolsa que carregava comigo. Só me lembro de, no banco, não o ver mais - não sei se me seguiu até o fim ou se desistiu um pouco antes, quando viu que o caminho era longo, o sol fortíssimo e de avermelhar e que eu o reparara.
Achei quase gracioso ter ganho um stalker assim, sem mais nem menos. Não descarto todas as maiores coincidências do mundo mais a minha mania de perseguição me causar alucinações, mas vá lá.
O que tira a graciosidade da coisa é saber que, se soubesse ou pudesse observar o interno, essa bagunça que sou e estou, jamais me seguiria, sequer me olharia o moçoilo. Tomaria uma distância segura, como fazem os majoritários (e deveriam os da minoria), e no máximo me observaria por curiosidade excêntrica.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Por vir

Pedaços de Photomaton & Vox, Herberto Helder

(photomaton)

Até quando pode a memória, e quanto pode, sou o actor e espectador cúmplice de uma vida perturbada, dramática e irónica. O pouco que percebo dessa massa teatral caótica pode inscrever-se na pauta de uma interpretação menor. Não compreendo nada.

Pensei que certas virtudes - a astúcia ganha na prova de todas as inspirações da inocência, uma sensibilidade adivinhadora desenvolvida através da indistinção espiritual entre luz e treva - acabariam por conduzir-me a qualquer entendimento.

*

(uma ilha em sketches)

A cabeça do cão continua virada para as águas. Ninguém presume o que vê ou sabe. É um bocado de pedra com a forma de uma cabeça de cão. Apenas intrigante. Está ali. Está inclinada para o abismo de água, para os enigmas.

*

(apostila insular)

A minha visão confiante é a alucinação.

O passado, a memória, a experiência constituem esse fundo de irrealidade que, semelhante a um feixe luminoso, aclara este momento de agora, revela como ele é cheio de surpresa, como já se destina à memória e é já essa incontrolável gramática sonhadora.

Porque:

La volonté pourrait délirer, mais l'incontrôlable rétablit toujours le cours de l'irrealité poétique. (Ribemont-Dessaignes).


segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Thais? Presente!

Por Marilene Felinto, na revista Caros Amigos - maio / 2009, nº146

Quando este texto sair - porque a revista é de publicação mensal -, Thais já terá morrido haverá dois meses. E esses tempos de verbo ("terá morrido", "haverá" - futuro do presente composto e futuro do presente simples), parecem não naturais (soam desconexos na leitura) e deveriam ter o nome de "futuro absurdo", não fosse toda a idéia de futuro em si absurda. Como se concebe um "futuro do presente", um "futuro do pretérito"? O tempo presente, diz a gramática, é indivisível; mas o pretérito e o futuro subdividem-se, explica: pode haver pretérito do pretérito, imperfeito e mais-que-perfeito; futuro do presente e futuro do pretérito. Pode-se dizer, portanto, que o tempo presente (o indivisível) é, no estrito senso, a única forma de realidade (Schopenhauer). É isto.

Tiro aqui uma licença poética para escrever sobre Thais e não sobre os outros temas quaisquer que costumo escolher. Deveria começar corrigindo o parágrafo introdutório, mudar para o tempo do leitor (o tempo verbal do momento em que se dá o fato: o presente da leitura, o passado da morte da Thais). E começaria o texto assim: Thais morreu faz dois meses (23 de março de 2009). A escolha inicial, pelo "tempo absurdo", é resultado do impacto que a morte súbita desta pessoa amiga ainda tem sobre mim.

Tiro licença, como se eu pudesse ser um Manuel Bandeira (1886 - 1968), que escreveu dúzias de elegias, poemas ternos e lindos, para os amigos mortos (e para os vivos): "A Mário de Andrade Ausente", "Ovalle", "Olegário Mariano", "...Augusto Frederico Schmidt", "José Claudio", etc etc. Não tenho tantos amigos, e tenho menos ainda a verve poética.

A de Thais foi destas mortes inesperadas (um carro, uma estrada, um choque brutal), que não deixam de provocar um sentimento de inconformismo, de revolta, como se o lógico fosse sempre a vida e não a morte - especialmente de quem ainda não dobrara o cabo das tormentas dos 50 anos (que completaria este ano). E Thais Sauaya Pereira (1959-2009) foi uma espécie de "José Cláudio". Quem foi José Cláudio? Também não sei exatamente (fui eu, foi você): um conhecido (ou amigo ou parente) do poeta pernambucano Manuel Bandeira, que transformou o nome de José Cláudio em poesia e escreveu sobre ele versos magníficos: "O espanto que nos deixaste!/Como fizeste crescer em nós o mistério augusto da morte! (...)".

Não se darão para Thais nomes de ruas nem se construirão para ela espetaculares pontes de homenagem (como se constroem para os grupelhos de direita no poder e seus amigos). Nem Thais, eu acho, desejaria ter seu nome estampado numa ponte. Era insurgente, revolucionária natural, uma força das forças sociais, triunfo da revolução sobre o reacionarismo, uma dessas que ajudou a construir, nos bastidores, um país menos pior chamado Brasil, um lugar de menos desilusão para amigos seus, filhos seus, seus parentes, seu marido. Militante de esquerda desde o Movimento Estudantil na década de 70, contribuiu para desenhar isto que hoje se chama Partido dos Trabalhadores (PT) - tudo sem cargo, tudo no anonimato. Colaborou até mesmo para uma convicção quase impossível: de alguma "resistência ética e grandeza no jornalismo", título do perfil biográfico que escreveu sobre Aloysio Biondi.

O título deste meu texto "Thais? Presente!" tem a ver também com o que ela foi: trata-se da saudação, palavra de ordem (conforme uma amiga em comum lembrou na homenagem íntima que oferecemos a ela), que o MST usa para invocar seus heróis, anônimos ou não, em reuniões.

Entre tantos erros nossos humanos (lembrou outra amiga nossa), Thais parece ter feito tudo certo antes de ir embora: como quem, no poema, toma antes uma consoada (leve refeição noturna, sem carne, que se toma em dia de jejum); como quem vê na morte uma presença "caroável" (que procura ser amável através de palavras ou gestos; afável, gentil, afetuoso); como quem, caralho!, lavrou antes o campo, limpou a casa, pôs a mesa, deixou cada coisa no seu lugar. Como se o poema tivesse sido escrito mesmo para ela.

Consoada
Manuel Bandeira

Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável)
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
-Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

(OPUS 10)

domingo, 16 de janeiro de 2011

Autopenitência

Alguns amnésicos nunca mais dormirão.

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Vitis Vinifera, vísceras e a coifa beckettiana

Em terra de jesuzes de giz pastel:

vinho tinto é o Espírito Santo
e Beckett, deus.




Alentejano, Pinotage sul-africano, Periquita;


domingo, 9 de janeiro de 2011

No tempo da delicadeza

Não te digo nada;
nada aconteceu.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

De derradeirismos

Sonhara sonho prévio à escuta de Petrouchka para começar, inventando sua visualidade, musicalidade e rítmica plausível de Titio Igor.

Noutro posterior, os timbres de Cathy Berberian e Modalys improvisando aos comandos de cores de minha escrita manual.

É este agora o último, com a Sagração sem modificação onírica ou falha de memória, como quem diz 'tchau'?