terça-feira, 29 de dezembro de 2009


O encontro foi constrangedor. Ela ficou de cabeça baixa esperando ele se aproximar. Ele não veio, faltou coragem, e ela, então, se foi.

王家衛

花樣年華
(In the Mood for Love; Amor à Flor-da-Pele)

sábado, 26 de dezembro de 2009

Sobre etnomusicólogos

(...) Although they may wish to study their subject dispassionately, they are in the end often unable to avoid the results of extended contact with humans and their works in a foreign society. They try to bring an understanding of their musics to their own society, believing that the teaching of their subject will in a small way promote intercultural - maybe even international - understanding, that it will combat ethnocentrism and build respect for the traditions of the world`s societies. Intelectually neutral in their quest for knowledge of musical cultures, they nevertheless have a passion for showing that the music of the oppressed people of the world, of lower classes in rigidly stratified societies, of isolated, indigenous, technically developing peoples, is something innately interesting, something worthy of attention and respect - indeed, something truly magnificent. These attitudes are not a prerequisite of graduate study or a teaching position, not part of the definition of the field; and they are surely also found among members of other professions. But there are few ethnomusicologists who do not share them.

Bruno Nettl, The Study of Ethnomusicology

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

O primeiro Natal e uma confissão (ou Natal Dionisíaco e Eu não entendo de jardinagem)

Primeiro natal com família assumidamente diluída. Primeiro natal sem mamãe. Primeiro natal em que não há reunião de minha família materna, primeiro natal em que não ganho nem uma lembrancinha - o que não fez nenhuma diferença. Até porque meu último presente foi um pequeno pônei, da minha mãe, tirando um sarrinho básico de mim e ao mesmo tempo me fazendo lembrar da minha infância prévideogame.
Resultado: muito vinho em meio a uma família desconhecida, da minha cunhada, no cu de Goiás. Bão, muito bão, como se diz por aqui. Fui à Santa Bárbara hoje, antes, e expurguei os últimos demônios naquela queda fantástica. Ao fim do dia, cabernet sauvignon português, cabernet chileno, um merlot, um que não deu tempo de identificar (ainda mais com a sobremesa), fechei com um Lambrusco cuja rolha se perdeu na noite cavalcantense.

Fiquei pensando nos crisântemos. Será que eles hão de sobreviver com uma semana sem água?
Aí, ok, senti-me no dever de parar com a farsa toda. Quando comprei o vasinho, e as flores ainda eram daquele laranjinha sem tom avermelhado, quis crisântemos. Os que tinham eram quase mortos. Comprei, então, um vasinho com flores pequenas, delicadas e alternativas. Laranjas.
Mas, minha gente, não são crisântemos. Gostei da idéia de serem-no, como simbologia. Não faz sentido, então aí vai a verdade: eu não manjo porra nenhuma de jardinagem.
Mas, é sério, esse semestre eu planto calêndula, capim-cidreira e outras coisas no meu jardim. É sério, e não promessa préanonovo.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Variação - Insônia e taças

As quimeras já morreram, Belerofonte já caiu no esquecimento, o Pégaso voou tão alto que perdeu-se a vista.

Os crisântemos se avermelharam por inteiro!

Permanecem os chás, virados nas noites de insônia como se vira cachaça goela abaixo por aí.

Tudo o que eu quero agora é uma garrafa de vinho e expirar tranqüila pro sossego dos próximos dias.

Se é pra falar de mitologia, que seja de Dioniso.

E se é pra insônia voltar, que volte de vez, pois tem me feito produzir absurdos, a noite inteira, horas a fio, só parando quando amanhece. Se com ela tenho uma relação de amor e ódio, aproveito que agora é só amor.

domingo, 13 de dezembro de 2009

Mariposas

Em 2006, na Letras, tendo aula de Introdução aos Estudos Clássicos II, segundo semestre, já umas 22h. Aulas sobre a Poética de Aristóteles, análises de tragédias e comédias greco-latinas. Os matões da USP, à noite, não apenas davam um ar tenebroso àquele campus mal-iluminado, mas também abrigavam centenas de bichos e insetos que vinham nos visitar durante as aulas. Desde marimbondos esporádicos até besouros que adoravam pousar nas bocas de umas alunas escandalosas e uns insetos de cores lindas e corpos bizarros, que voavam com umas coisas - apêndices? - penduradas.
Nesse dia uma mariposinha bem delicada, marrom, bonita, ficou passeando naquela sala espremida com pelo menos cinqüenta alunos moribundos. Minha vida estava ganhando um ar diferente por coisas que aconteciam e, empática, discretamente eufórica, quieta e insone, apoiei meu cotovelo na carteira, me permiti desligar um pouco da aula, deixei o dedo indicador elevado, mas horizontal, paralelamente à mesa. Olhei para a mariposa, fechei os olhos e quis chamá-la. Quis que ela entendesse que o meu indicador era um convite, que só queria vê-la (inclusive lembrei do filme, A Língua das Mariposas, e quis ver sua língua de perto - mesmo que no filme fossem borboletas). Reabri os olhos e, em pouco tempo de mentalização, ela se aproximou e pousou no meu dedo. Fiquei imóvel, olhando-a, tão de pertinho, e vi sua língua desenrolar e enrolar de novo. Fiquei encantada. Como uma garantia de que não fosse uma alucinação apaixonada de recém-pós-adolescente, um colega olhou pra mim, depois de uns cinco minutos da mariposa ali, confortável, e comentou a permanência longa da bichinha.
Ela ficou por mais tempo ainda, até que o braço cansou e mexi pra que voasse.
Nunca esqueço disso.

No começo desse ano, chegando em casa, ainda em São Paulo. O corredor do prédio horizontal era longo e meu apartamento, no final. Antes de abrir a porta me deparei com a maior mariposa que já vi, totalmente preta, bem à frente. O corredor era estreito além de longo (alguns amigos até mencionavam O Iluminado e perguntavam se eu nunca tinha me deparado com duas gêmeas ali) e, à frente da porta, só a parede com o extintor. As portas vizinhas eram estrategicamente às diagonais.
E era ali que estava a mariposa, em pose de visita. Não é o costume, mas fiquei bastante assustada. Lembrei dum conto, numa aula de espanhol do colégio, em que mariposas pretas eram mencionadas como mau agouro, como prenúncio de morte ao visitar a casa de alguém. Entrei, fiz qualquer coisa, dez minutos depois reabri a porta só pra verificar a mariposa. Não estava mais lá.

Perdi minha mãe um ou dois meses depois.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Yayoi Kusama

Criptografias

Livrei-me de nauseabundades. Evitei-as, não sumiram, então neutralizei. Inspira, expira.
(Yi Jing, Dao de Jing, caralho)

O prazer estético me trazer de volta à insônia é sinal de vício?


Ontem, quando fui regar os crisântemos, resolvi virá-los. O lado externo estava se avermelhando, lindo. O de dentro, em comparação, meio desbotado no laranja.
Deixei virado o vasinho para que o vermelho tome conta.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Lembrança

Tenho aqui, há pouco mais de um mês, um vasinho com crisântemos.
São flores pequenas, delicadas, bonitas, de tom alaranjado, forte mas não ofensivo aos olhos.
Todos os dias jogo água no vasinho, no parapeito da janela da cozinha.

Lembro, olhando para o parapeito, das violetinhas graciosas que duraram muito, mas não resistiram à mudança e padeceram com o chacoalhar do caminhão e as semanas de soro ocular - sem água.

Morreram na transição e no hiato emocional.

A saudade é amenizada pela consciência de que, em certas circunstâncias, não há espaço para fragilidades.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Do âmago

Loka Samasta Sukhino Bhavantu