domingo, 13 de dezembro de 2009

Mariposas

Em 2006, na Letras, tendo aula de Introdução aos Estudos Clássicos II, segundo semestre, já umas 22h. Aulas sobre a Poética de Aristóteles, análises de tragédias e comédias greco-latinas. Os matões da USP, à noite, não apenas davam um ar tenebroso àquele campus mal-iluminado, mas também abrigavam centenas de bichos e insetos que vinham nos visitar durante as aulas. Desde marimbondos esporádicos até besouros que adoravam pousar nas bocas de umas alunas escandalosas e uns insetos de cores lindas e corpos bizarros, que voavam com umas coisas - apêndices? - penduradas.
Nesse dia uma mariposinha bem delicada, marrom, bonita, ficou passeando naquela sala espremida com pelo menos cinqüenta alunos moribundos. Minha vida estava ganhando um ar diferente por coisas que aconteciam e, empática, discretamente eufórica, quieta e insone, apoiei meu cotovelo na carteira, me permiti desligar um pouco da aula, deixei o dedo indicador elevado, mas horizontal, paralelamente à mesa. Olhei para a mariposa, fechei os olhos e quis chamá-la. Quis que ela entendesse que o meu indicador era um convite, que só queria vê-la (inclusive lembrei do filme, A Língua das Mariposas, e quis ver sua língua de perto - mesmo que no filme fossem borboletas). Reabri os olhos e, em pouco tempo de mentalização, ela se aproximou e pousou no meu dedo. Fiquei imóvel, olhando-a, tão de pertinho, e vi sua língua desenrolar e enrolar de novo. Fiquei encantada. Como uma garantia de que não fosse uma alucinação apaixonada de recém-pós-adolescente, um colega olhou pra mim, depois de uns cinco minutos da mariposa ali, confortável, e comentou a permanência longa da bichinha.
Ela ficou por mais tempo ainda, até que o braço cansou e mexi pra que voasse.
Nunca esqueço disso.

No começo desse ano, chegando em casa, ainda em São Paulo. O corredor do prédio horizontal era longo e meu apartamento, no final. Antes de abrir a porta me deparei com a maior mariposa que já vi, totalmente preta, bem à frente. O corredor era estreito além de longo (alguns amigos até mencionavam O Iluminado e perguntavam se eu nunca tinha me deparado com duas gêmeas ali) e, à frente da porta, só a parede com o extintor. As portas vizinhas eram estrategicamente às diagonais.
E era ali que estava a mariposa, em pose de visita. Não é o costume, mas fiquei bastante assustada. Lembrei dum conto, numa aula de espanhol do colégio, em que mariposas pretas eram mencionadas como mau agouro, como prenúncio de morte ao visitar a casa de alguém. Entrei, fiz qualquer coisa, dez minutos depois reabri a porta só pra verificar a mariposa. Não estava mais lá.

Perdi minha mãe um ou dois meses depois.

3 comentários:

Alexandre Passos disse...

Fiz boa viagem, sim; estranhamente, no entanto, o jet-lag está muito forte (essa noite quase não consegui pregar o olho, acho que é porque lá é seis horas mais cedo do que aqui).

Eu gosto de jogar idéias fora, também, tem o seu que de alívio quando isso acontece. No geral eu não sou muito apegado a idéias, o que eu acho bom.

Neve é interessante, mas, não se engane, com uma viagem como a sua você tira um zilhão de coisas que não chegariam nem perto de uma viagem como a minha.

Adorei isso da mariposa, por sinal, não sei nem o que dizer. E aí, quando saímos nesse meu restinho de barão geraldo? Vamos ver filme, abrir um vinho, algo assim?

Beijos

Anônimo disse...

Eba, eba, eba, moça!!! Quero muito te encontrar. Estou aoslutamente LIVRE! Basta me ligar, hehe. Sexta à noite, 18, tem a melhor balada de música brasileira do mundo, no Aldeia Turiassú, Banda Glória. Estarei lá, será que vc não quer ir pra gente trocar umas idéias, dançar, admirar os músicos, e se ver? Depois marcamos algo mais calmo? Ou vc quer algo mais calmo direto? Me manda seus telefones por email! Bisouuuuusss!

Murilo disse...

Surreal...