Não me convidou para a casa, decidi por mim visitá-la de surpresa. Um pouco constrangida e incrédula com a aparição repentina e sem aparente razão, agiu como anfitriã simpática e desajeitada. A vergonha pela desorganização da sala fazia bambear seu desejo expresso de que "fique à vontade, por favor" e empática pude imaginar sordidezinhas escondidas e perdidas por ali. Fez-me sentar enquanto seguia para a cozinha, sem interromper a fala, para esquentar água. O chá só me foi oferecido enquanto se servia, meu desquerer seria irrelevante de qualquer maneira. Disse achar terrível a pergunta, mas ainda assim fê-la, "por qual razão veio me visitar?", ao que sinceramente não havia resposta. Ou pretexto. Não se tratava de saudade, não se tratava de querência, tampouco era uma cobrança ou algum acerto. "Acho que vim para tomar seu chá", foi tudo o que consegui dizer com sorriso beirado cínico, respondido com amarelidão silenciosa.
O som de sua boca sugando o chá me agonizava, sua agitação sugeria andamento prestíssimo dos vindouros, engatei um conversê qualquer para ouvi-la articular. Deve ter-se esquecido que era eu, vi seus olhos brilharem de tristeza e fascínio ao discorrer sem requinte sobre a situação humana, a questão humana, foram muitos os nomes dados à coisa e confessos surrupiados de outrem. "Eu plagio e me aproprio, mas arre, que tipo de diabo viria me cobrar direitos e patentes de melancolia? Já é o estágio em que de fato as pessoas só cedem à comunidade por meio da tristeza. Tristeza bruta e bem justificada. Hoje em dia parece ser só a morte" quando interrompi, única intervenção, acolhida e compactuada, de que não é exclusividade do agora. O vapor do chá parado já se acabava enquanto ela continuava, como num transe, a falar.