quinta-feira, 26 de abril de 2012

Articulação, organização, objetividade sem perder o interesse, coisas que são internalizadas ao longo dos anos em linguagens verbais diversas. Civilidade ajuda na credibilidade e reforça argumentos, além de facilitar que o interlocutor te acompanhe. E blá blá blá.

Acontece que eu vivo numa cidade com um Kassab escroto e desgraçado, calhorda filho duma puta, e toda gente que faz essa desgraça ser eleita, e foda-se, se você foi atropelado na faixa é porque mereceu. A culpa é sempre da vítima e há de se abaixar a cabeça porque veículos sempre têm mais razão. Especialmente se o atropelador for um milionário.

Civilidade é o caralho, que não tenho visto muito disso por aí não.

sábado, 21 de abril de 2012

Entre outros sintomas da vida adulta, aquele em que há anos datas mudaram de caráter. Já não muito boa com elas antes do adultismo, as divisões permanecem lunares pela hemorragia mensal e recebem grifos, detalhes e umas belas dores de cabeça pelo aluguel, luz e outras coisas. Trabalho autônomo faz alguns feriados passarem em branco e sábados são quintas e domingos só os são pelo toque de recolher. Esperando compreensão dos mais sensíveis aos esquecimentos de aniversários e etc. E dias e datas especiais também.
Qualquer área que me guste ou que me apareça me faz manter a desilusão com tudo. Jimmie Durham, uma amiga bióloga canadense e um filme de 1975 me fizeram pensar muito nos últimos anos, como nunca havia de fato dispendido tempo para fazer, com "a questão indígena". E essa arrogância ocidental em dar nomes às crises e aos problemas desse jeito, quando a questão é apenas a preocupação tardia e minoritária com reminiscentes de uma cultura devastada, estuprada, escravizada e atualmente no limbo e no alcoolismo em muitos países. O filme revisto no domingo fez-me sonhar com uma situação de rebelião indígena violenta e remoída, mais que reivindicação territorial protestavam com vingança tudo o que o homem branco europeu os fez. Ninguém pensava em lutar de volta, apenas tentavam fugir com culpa.
Acordei, passei o dia como os outros sem perceber a data. Ligam mais tarde, dia 20, aniversário do teu irmão, não esqueça, e só então me dou conta de que este sonho se deu ao fim do dia do índio, 19 de abril.

Nada como pescar culpa no inconsciente coletivo.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Parte I

Não me convidou para a casa, decidi por mim visitá-la de surpresa. Um pouco constrangida e incrédula com a aparição repentina e sem aparente razão, agiu como anfitriã simpática e desajeitada. A vergonha pela desorganização da sala fazia bambear seu desejo expresso de que "fique à vontade, por favor" e empática pude imaginar sordidezinhas escondidas e perdidas por ali. Fez-me sentar enquanto seguia para a cozinha, sem interromper a fala, para esquentar água. O chá só me foi oferecido enquanto se servia, meu desquerer seria irrelevante de qualquer maneira. Disse achar terrível a pergunta, mas ainda assim fê-la, "por qual razão veio me visitar?", ao que sinceramente não havia resposta. Ou pretexto. Não se tratava de saudade, não se tratava de querência, tampouco era uma cobrança ou algum acerto. "Acho que vim para tomar seu chá", foi tudo o que consegui dizer com sorriso beirado cínico, respondido com amarelidão silenciosa.
O som de sua boca sugando o chá me agonizava, sua agitação sugeria andamento prestíssimo dos vindouros, engatei um conversê qualquer para ouvi-la articular. Deve ter-se esquecido que era eu, vi seus olhos brilharem de tristeza e fascínio ao discorrer sem requinte sobre a situação humana, a questão humana, foram muitos os nomes dados à coisa e confessos surrupiados de outrem. "Eu plagio e me aproprio, mas arre, que tipo de diabo viria me cobrar direitos e patentes de melancolia? Já é o estágio em que de fato as pessoas só cedem à comunidade por meio da tristeza. Tristeza bruta e bem justificada. Hoje em dia parece ser só a morte" quando interrompi, única intervenção, acolhida e compactuada, de que não é exclusividade do agora. O vapor do chá parado já se acabava enquanto ela continuava, como num transe, a falar.