quinta-feira, 12 de julho de 2012

Padronização, padrão, formato e formatação. Normas e convenções, moldes, este ou aquele, esse ou nenhum. Nova ortografia e ABNT, cérebro adaptado a três línguas e dois teclados diferentes.

Não há dispêndio de atenção para o que deslize ou escorra um pouco para fora, não mais. O gozo máximo ser ousar dentro do padrão, criar dentro das limitações brutas, nunca de fato. Deturpar os significados que já pertenceram aos termos.

Bater a cabeça contra a parede, bater às portas da burocracia com sorriso desesperado na mão e currículo na cara, e todo o entendimento empático se esvai, pessoas com joguinhos cruéis à procura da mediocridade pura e sem razão. 

Identificar dicotomias e domínio das normas todas; ironia autodestrutiva, assim é possível criticar. Muitas vezes não dá mais para aguentar, isso isso, entenda e entre, domine e mude; transforme o sistema, foda-o por dentro, infiltre-se para criticar e ganhar credibilidade, nada, passar dez anos da vida pensando e visando salários maiores não é se deixar engolir não. É vida.


Suicídio atraente é hackear para apagar CPF e certidões demais.

terça-feira, 22 de maio de 2012

Estranho de mim mesmo, de Robert Schindel


Tornei-me um estranho de mim mesmo
O ritmo dos passos e o riso
O instante. Um estranho de mim mesmo.

De ombro na ombreira arrastando o tempo
O emprego, uns namoros, gramar reuniões
Conversas com os amigos, a olhar. De ombro na ombreira.

O mundo lá fora encasulou-se. Os desfiladeiros das ruas
Apertam-se e o verão a abrir em sonhos
Lá fora o belo mundo encasulou-se e tece desvarios.

Ninguém discute. O vinho de azedas golo a golo.
As notícias de fora no bolso do casaco. Os inimigos pessoais
Vão morrendo. E eu tão manso. Não discuto.

Não gosto muito de viver assim. Mas a política
Não me deixa morrer. Precisa-se ainda
Dos insubstituíveis. E assim vou vivendo.


Tradução de João Barrento

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Marreta na cabeça do marreco deformado.

(Que a atualidade finge, mas não dá a mínima para os debilitados)

Em soma é 6 e pro Aleister é 12.

É, acho que tá bem ok.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

Criptografia

(cripto- + -grafia) 
s. f.
Escrita secreta, em cifra, isto é, por meio de abreviaturas ou sinais convencionais.

Encriptar

(en- + cripta + -ar)
v. tr.
1. Meter ou enterrar em cripta. = SEPULTAR

Cripta

s. f.
1. Carneiro sepulcral.
2. Caverna subterrânea.
3. Catacumba.

(Do latim Crypta, "cofre, caverna" e do grego Kryptē, "oculto, escondido, segredo".)

*

Enquanto um caco de almotolia era desenfiado do pé descalço, roxo de frio avermelhando do sangue, insone que nem os dentes.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Articulação, organização, objetividade sem perder o interesse, coisas que são internalizadas ao longo dos anos em linguagens verbais diversas. Civilidade ajuda na credibilidade e reforça argumentos, além de facilitar que o interlocutor te acompanhe. E blá blá blá.

Acontece que eu vivo numa cidade com um Kassab escroto e desgraçado, calhorda filho duma puta, e toda gente que faz essa desgraça ser eleita, e foda-se, se você foi atropelado na faixa é porque mereceu. A culpa é sempre da vítima e há de se abaixar a cabeça porque veículos sempre têm mais razão. Especialmente se o atropelador for um milionário.

Civilidade é o caralho, que não tenho visto muito disso por aí não.

sábado, 21 de abril de 2012

Entre outros sintomas da vida adulta, aquele em que há anos datas mudaram de caráter. Já não muito boa com elas antes do adultismo, as divisões permanecem lunares pela hemorragia mensal e recebem grifos, detalhes e umas belas dores de cabeça pelo aluguel, luz e outras coisas. Trabalho autônomo faz alguns feriados passarem em branco e sábados são quintas e domingos só os são pelo toque de recolher. Esperando compreensão dos mais sensíveis aos esquecimentos de aniversários e etc. E dias e datas especiais também.
Qualquer área que me guste ou que me apareça me faz manter a desilusão com tudo. Jimmie Durham, uma amiga bióloga canadense e um filme de 1975 me fizeram pensar muito nos últimos anos, como nunca havia de fato dispendido tempo para fazer, com "a questão indígena". E essa arrogância ocidental em dar nomes às crises e aos problemas desse jeito, quando a questão é apenas a preocupação tardia e minoritária com reminiscentes de uma cultura devastada, estuprada, escravizada e atualmente no limbo e no alcoolismo em muitos países. O filme revisto no domingo fez-me sonhar com uma situação de rebelião indígena violenta e remoída, mais que reivindicação territorial protestavam com vingança tudo o que o homem branco europeu os fez. Ninguém pensava em lutar de volta, apenas tentavam fugir com culpa.
Acordei, passei o dia como os outros sem perceber a data. Ligam mais tarde, dia 20, aniversário do teu irmão, não esqueça, e só então me dou conta de que este sonho se deu ao fim do dia do índio, 19 de abril.

Nada como pescar culpa no inconsciente coletivo.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Parte I

Não me convidou para a casa, decidi por mim visitá-la de surpresa. Um pouco constrangida e incrédula com a aparição repentina e sem aparente razão, agiu como anfitriã simpática e desajeitada. A vergonha pela desorganização da sala fazia bambear seu desejo expresso de que "fique à vontade, por favor" e empática pude imaginar sordidezinhas escondidas e perdidas por ali. Fez-me sentar enquanto seguia para a cozinha, sem interromper a fala, para esquentar água. O chá só me foi oferecido enquanto se servia, meu desquerer seria irrelevante de qualquer maneira. Disse achar terrível a pergunta, mas ainda assim fê-la, "por qual razão veio me visitar?", ao que sinceramente não havia resposta. Ou pretexto. Não se tratava de saudade, não se tratava de querência, tampouco era uma cobrança ou algum acerto. "Acho que vim para tomar seu chá", foi tudo o que consegui dizer com sorriso beirado cínico, respondido com amarelidão silenciosa.
O som de sua boca sugando o chá me agonizava, sua agitação sugeria andamento prestíssimo dos vindouros, engatei um conversê qualquer para ouvi-la articular. Deve ter-se esquecido que era eu, vi seus olhos brilharem de tristeza e fascínio ao discorrer sem requinte sobre a situação humana, a questão humana, foram muitos os nomes dados à coisa e confessos surrupiados de outrem. "Eu plagio e me aproprio, mas arre, que tipo de diabo viria me cobrar direitos e patentes de melancolia? Já é o estágio em que de fato as pessoas só cedem à comunidade por meio da tristeza. Tristeza bruta e bem justificada. Hoje em dia parece ser só a morte" quando interrompi, única intervenção, acolhida e compactuada, de que não é exclusividade do agora. O vapor do chá parado já se acabava enquanto ela continuava, como num transe, a falar.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Libertação simples

Posso agora dizer tranquilamente, em alto e bom som, que não gosto de gente rica.
Detesto.
Detesto o discurso em cima do muro, detesto quem não machuca, resseca e/ou caleja mãos e quem tem subordinados que os façam, quem diz "me acusaram de trabalho escravo, que absurdo, eles ao menos têm onde dormir e mal trabalham, quer vida melhor?", detesto quem diz que se sente mal pela pobreza alheia mas não vê problema algum em seu acúmulo frenético e exorbitante de capital, detesto a cultura de se gastar, num dia, numa peça de roupa, o que muitos gastam num mês inteiro pra se alimentar.
Detesto a promessa de recompensa para toda uma vida se for um trabalhador. Detesto que seja tudo sombra imutável de iluministas, não importa quantos séculos se passem.
E esqueça as promessas. Não há ascensão social, há "surgimento de uma nova classe média" e há nouveaux riches.

Não é ódio entre classes, é repúdio à existência destas.

terça-feira, 27 de março de 2012

O luarado confessava inaudito, simples e assombroso, e eu fico presa à frase. São as pequenas coisas, os fragmentos, estes sim, daí o decifrar. Se a obsessão pelo cataclismo outrora catalisou a insônia tão íntima, são fantasmas de Serasa e SPC e afins que me esbugalham as pálpebras, não me permitem apagar e me cutucam com as promessas religiosas de bem-aventurança dos cursos técnicos e acadêmicos, já fundidos na sociedade teimosa e apegada à condição de colona. Vagabunda, dona de casa, deprimida, órfã, qualquer coisa cai em discurso de gênero e sexista, englobado capitalista, pro lado que for, e se isso ou aquilo pela coisa do desajuste. Resistência obstinada à codificação binária e à falsa escolástica engulipada pela burocracia secular.

A prestação já venceu e o universo não se aquieta.

sexta-feira, 23 de março de 2012

quarta-feira, 21 de março de 2012

Poesia da janela

"Agora cê qué, né? Pudim de pinga da porra!"

terça-feira, 20 de março de 2012

Jorge de Sena

Pergunto-me a mim mesmo como foi possível:
ou os impérios gastam o seu povo até que ele seja
uma raça agachada, mesquinha e traiçoeira,
ou é com gente dessa que os impérios se fazem,
já que nada glorioso se constrói humanamente
sem 10% de heróis e 90% de assassinos.

Que coisa fedorenta a glória, sobretudo
enquanto não passam séculos e só ruínas
fiquem – onde nem o pó dos mortos
ainda cheire mal

sexta-feira, 16 de março de 2012

Maissampa

Ordinarices

Olhar para trás a cada 100 metros percorridos, hostilidade implícita ou explícita, efervescência no pior sentido, ônibus lotado, ódio entre classes, o centro ser o limbo e o limbo invisível, os shortinhos rebolantes de moças decotadas, trinta reais virou preço barato pra quase tudo, vizinhos esbanjando amargura, Itaú Cultural, botequins de esquina com seus salgados.

Extraordinarices

Motorista no carro descasca e come uma banana às 23h no farol vermelho da avenida, uma silhueta numa varanda de um grande prédio, amigos, um cadeirante pega ônibus e usa aquele aparato que faz barulho de aeroporto, o ônibus todo para e vira o pescoço em sincronia pelo evento, a Eletropaulo não cortou a luz pelo atraso de pagamento, o Sr. Ogava.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Horrível Boca, de Carlos Edmundo de Ory

Eu sou-sou cego tão cego tão-tão
Estou cego nas leis das trevas
Já não sei ver nem sei pensar
Só me vem o canto da vida
Mas de tão longe atrozmente longínquo
Golpe de vista encantada conduz-me à magia
através do caos formidável do não-ser
Mistério dos meus sonhos obscuros
E o que imagino possa estar atrás das minhas costas

Hélia Correia

25.

Sim, falamos de sombras. Vendo bem,
Incendiámos tudo: Alexandria
E os sábios, as mulheres. Incendiámos
O grande coração. Temos aos ombros
O apetrecho dos destruidores,
Não a pólvora, não: essa arrogância
Pela qual o ocidente se perdeu.

terça-feira, 13 de março de 2012

Octavio Paz

Tortuosamente, avançando milímetros por ano, abro um caminho pela rocha. Desde há milénios os meus dentes se gastam e as minhas unhas partem-se para lá chegar, ao outro lado, à luz e ao ar livre. E agora que as minhas mãos sangram e os meus dentes tremem, inseguros, numa cavidade aberta pela sede e pelo pó, detenho-me e contemplo a minha obra: passei a segunda metade da minha vida partindo pedra, perfurando muralhas, abrindo portas e removendo obstáculos que interpus entre mim e a luz durante a primeira metade da minha vida.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Estamos

numa boa pescando pessoas no mar

sábado, 21 de janeiro de 2012

Sampa

Agora passa um carro e uma menina se esganiça "chuuupa" a deselegância indiscreta da desafinada e quebra brusca que no "uuu" a voz não sabia pra onde ia, berra sem apoio. Passava de carro, ouvi em crescendo e decrescendo mas
não tem nada a ver, o yodelling involuntário que me distraiu. Eu queria falar da crueza como resistência, falar que a Carta Capital teve boas reportagens agora, falar também que eu sinto um baita orgulho em não fazer as coisas com requinte que a riqueza dá.
Democracia já me parece uma grande palhaçada e argumentos tortos de que "sou nazista fascista ista ista então me deixa usufruir da liberdade de expressão e falar que eu odeio pobre que eu odeio o Lula que eu odeio gay que eu odeio que o país cresce mas eu não" e todos os outros. Eu gosto de pensar que é problema psicanalítico, só. Tem craqueiro e cracolândia, o paraíso da depressão e dos desesperados, tem Jardins e tem Guedala, paraíso dos filhos duma puta, dinheiro e comer prostituta de luxo e estagiárias e secretárias da empresa, não divorciar porque pensão é mais chata que a mulher e não é bom dar escândalo.
Craqueiro é sujeira é vergonha, é ponto preto na cidade e no projeto de lucro Luz do prefeito, melhor mandar pro interior, tá feio ô seu governador, o prefeito limpou a cidade da poluição visual agora o senhor deveria limpar a poluição humana.
Que pra estudante sem-teto craqueiro é só PM. Liberdade e empatia é o caralho que não gosto de vagabundo eu pago imposto e quero aposentar mas até lá que idosos que se fodam.

Queria falar um monte de coisa mas a mentalidade reacionária desse estado paulista ista me entala na garganta dói nas têmporas é antissináptica.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Amor à primeira vista, de Wisława Szymborska

Ambos estão certos
de que uma paixão súbita os uniu.
É bela essa certeza,
mas é ainda mais bela a incerteza.

Acham que por não terem se encontrado antes
nunca havia se passado nada entre eles.
Mas e as ruas, escadas, corredores
nos quais há muito talvez tenham se cruzado?

Queria lhes perguntar,
se não se lembram -
numa porta giratória talvez
algum dia face a face?
um "desculpe" em meio à multidão?
uma voz que diz "é engano" ao telefone?
- mas conheço a resposta.
Não, não se lembram.

Muito os espantaria saber
que já faz tempo
o acaso brincava com eles.

Ainda não de todo preparado
para se transformar no seu destino
juntava-os e os separava
barrava-lhes o caminho
e abafando o riso
sumia de cena.

Houve marcas, sinais,
que importa se ilegíveis.
Quem sabe três anos atrás
ou terça-feira passada
uma certa folhinha voou
de um ombro ao outro?
Algo foi perdido e recolhido.
Quem sabe se não foi uma bola
nos arbustos da infância?

Houve maçanetas e campainhas
onde a seu tempo
um toque se sobrepunha ao outro.
As malas lado a lado no bagageiro.
Quem sabe numa noite o mesmo sonho
que logo ao despertar se esvaneceu.

Porque afinal cada começo
é só continuação
e o livro dos eventos
está sempre aberto no meio.


Tradução de Regina Przybycien

*

Em minha licença poética mudo o título - ou melhor, apenas acresço, com conjunção essencial disjuntiva, o título

Largo Nossa Senhora da Conceição 2000