sexta-feira, 30 de março de 2012

Libertação simples

Posso agora dizer tranquilamente, em alto e bom som, que não gosto de gente rica.
Detesto.
Detesto o discurso em cima do muro, detesto quem não machuca, resseca e/ou caleja mãos e quem tem subordinados que os façam, quem diz "me acusaram de trabalho escravo, que absurdo, eles ao menos têm onde dormir e mal trabalham, quer vida melhor?", detesto quem diz que se sente mal pela pobreza alheia mas não vê problema algum em seu acúmulo frenético e exorbitante de capital, detesto a cultura de se gastar, num dia, numa peça de roupa, o que muitos gastam num mês inteiro pra se alimentar.
Detesto a promessa de recompensa para toda uma vida se for um trabalhador. Detesto que seja tudo sombra imutável de iluministas, não importa quantos séculos se passem.
E esqueça as promessas. Não há ascensão social, há "surgimento de uma nova classe média" e há nouveaux riches.

Não é ódio entre classes, é repúdio à existência destas.

terça-feira, 27 de março de 2012

O luarado confessava inaudito, simples e assombroso, e eu fico presa à frase. São as pequenas coisas, os fragmentos, estes sim, daí o decifrar. Se a obsessão pelo cataclismo outrora catalisou a insônia tão íntima, são fantasmas de Serasa e SPC e afins que me esbugalham as pálpebras, não me permitem apagar e me cutucam com as promessas religiosas de bem-aventurança dos cursos técnicos e acadêmicos, já fundidos na sociedade teimosa e apegada à condição de colona. Vagabunda, dona de casa, deprimida, órfã, qualquer coisa cai em discurso de gênero e sexista, englobado capitalista, pro lado que for, e se isso ou aquilo pela coisa do desajuste. Resistência obstinada à codificação binária e à falsa escolástica engulipada pela burocracia secular.

A prestação já venceu e o universo não se aquieta.

sexta-feira, 23 de março de 2012

quarta-feira, 21 de março de 2012

Poesia da janela

"Agora cê qué, né? Pudim de pinga da porra!"

terça-feira, 20 de março de 2012

Jorge de Sena

Pergunto-me a mim mesmo como foi possível:
ou os impérios gastam o seu povo até que ele seja
uma raça agachada, mesquinha e traiçoeira,
ou é com gente dessa que os impérios se fazem,
já que nada glorioso se constrói humanamente
sem 10% de heróis e 90% de assassinos.

Que coisa fedorenta a glória, sobretudo
enquanto não passam séculos e só ruínas
fiquem – onde nem o pó dos mortos
ainda cheire mal

sexta-feira, 16 de março de 2012

Maissampa

Ordinarices

Olhar para trás a cada 100 metros percorridos, hostilidade implícita ou explícita, efervescência no pior sentido, ônibus lotado, ódio entre classes, o centro ser o limbo e o limbo invisível, os shortinhos rebolantes de moças decotadas, trinta reais virou preço barato pra quase tudo, vizinhos esbanjando amargura, Itaú Cultural, botequins de esquina com seus salgados.

Extraordinarices

Motorista no carro descasca e come uma banana às 23h no farol vermelho da avenida, uma silhueta numa varanda de um grande prédio, amigos, um cadeirante pega ônibus e usa aquele aparato que faz barulho de aeroporto, o ônibus todo para e vira o pescoço em sincronia pelo evento, a Eletropaulo não cortou a luz pelo atraso de pagamento, o Sr. Ogava.

quarta-feira, 14 de março de 2012

Horrível Boca, de Carlos Edmundo de Ory

Eu sou-sou cego tão cego tão-tão
Estou cego nas leis das trevas
Já não sei ver nem sei pensar
Só me vem o canto da vida
Mas de tão longe atrozmente longínquo
Golpe de vista encantada conduz-me à magia
através do caos formidável do não-ser
Mistério dos meus sonhos obscuros
E o que imagino possa estar atrás das minhas costas

Hélia Correia

25.

Sim, falamos de sombras. Vendo bem,
Incendiámos tudo: Alexandria
E os sábios, as mulheres. Incendiámos
O grande coração. Temos aos ombros
O apetrecho dos destruidores,
Não a pólvora, não: essa arrogância
Pela qual o ocidente se perdeu.

terça-feira, 13 de março de 2012

Octavio Paz

Tortuosamente, avançando milímetros por ano, abro um caminho pela rocha. Desde há milénios os meus dentes se gastam e as minhas unhas partem-se para lá chegar, ao outro lado, à luz e ao ar livre. E agora que as minhas mãos sangram e os meus dentes tremem, inseguros, numa cavidade aberta pela sede e pelo pó, detenho-me e contemplo a minha obra: passei a segunda metade da minha vida partindo pedra, perfurando muralhas, abrindo portas e removendo obstáculos que interpus entre mim e a luz durante a primeira metade da minha vida.