sábado, 17 de dezembro de 2011

Transcrição III (ou Episodicamente)

Observando a cena. Cheiro de ketchup morno da moça curvada que come um sanduíche do McDonalds ao meu lado, a dois metros e meio de mim, com pressa e sem mesa. À frente, a uns seis metros, a senhorinha que desde que cheguei ali estava. Sacola, bolsa, acampadas no banco; trajes de quem se perdeu na década de 40 - mas daqueles que eram uns coitados nos 40, inascensionáveis em suas condições de queda. Calor, ela de roupas pesadas e escuras, invernais, gola alta, casaco marrom, saia que mostra uns palmos das canelas. Os sapatos são igualmente anacrônicos e sóbrios, de saltinho; no direito um saco plástico verde o reveste, no esquerdo, um branco. Suas pernas desarmônicas chamam mais a atenção que suas feições e cabelos ciganos. O plástico verde ressalta a vermelhidão e inchaço de sua canela desnuda e remete, com minha ignorância diagnóstica, à gota ou qualquer doença tratável que maltratou tantos medievais. O plástico branco é preso com uma fita da cor da meia bege velha que veste a outra perna, supostamente livre do mal. Seu guarda-chuva é azul de babados. A postura de suas costas, debruçadas no pilar branco, é tão desoladora quanto sua expressão de sofrimento. Aqui há mais de meia hora, chorou um ganido agudo de dor que captou a atenção de duas moças que trabalham na galeria. Prosearam sobre a condição da senhorinha por vários minutos e deram tchau com boa sorte. No meio tempo o segurança pediu que eu tirasse os pés do banco. Contestei, perguntei de quem eram as ordens e seus porquês, tirei meus pés para, já distante o segurança, retorná-los.

De Juan Gelman

toda a poesia é hostil ao capitalismo
pode tornar-se dura e seca
não por ser pobre mas
para não ajudar à riqueza oficial

pode ser o seu modo de protestar de
tornar-se fraca já que existe fome
amarela de sede e queixosa
da pura dor que existe pode

em troca abrir os becos do delírio e as bestas
cantarem atropelando-se vivas de
fúria de calor sem destino pode
até negar-se a si mesma enquanto outra

maneira de vencer a morte
tal como chorar nos velórios
poetas de hoje
poetas deste tempo

apartaram-nos da grei sei lá o que será de nós
conservadores comunistas apolíticos quando
suceder o que há-de suceder mas
toda a poesia é hostil ao capitalismo

Tradução de A.M.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Causo infausto

Rede social, aquela porcaria de sempre. Digitar o endereço cru faz cair na página inicial, não em seu próprio perfil.
Feeds.
Essa porra que chama o olhar como outdoor na rua (ah, é mesmo, nosso exímio prefeito os limpou!) ou como as televisões em restaurantes que são distribuídas daquela maneira difícil de se evitar.
Aquela menina; chegou a estudar brevemente comigo. Sinceramente nem lembro que existe e, quando o faço - via Facebook -, só serve para lembrar da gente rica da vida vazia.
Deprime.

Bati o olho em duas atualizações seguidas. Numa, 'curtiu' uma bobagem qualquer "sonho de toda mulher: gato e rico" e em seguida fotos postadas de seus cachorros, gordos, feitos como bonecos ou crianças infelizes: chapéu de papel, gravata, roupa de bailarina, sorvete canino, sorvete humano, festa de aniversário. Legendas que me lembram aquelas personalidades doutros séculos, desvairadas, fora de órbita e aristocratas. Mas mais deprimente.

Desfazer amizade.
Tem certeza que deseja tirar da sua lista de amigos?
Sim.

Isso tudo é realmente bem deprimente, assim, salingerianamente.