terça-feira, 27 de abril de 2010

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Ingestão

Depois de comer todo o interior da primeira pitaya que compro (e vejo) no Brasil, esqueci da nostalgia cambojana que a fruta me dá e continuei contemplando sua casca e sua pele quase fúcsia. Sem aquietar. Hipnotizada pela beleza estética da fruta.
Separei essa pele intermediária da casca escamada com faca, joguei as fatias numa chaleira e deixei em infusão por alguns minutos. O chá resultante era duma cor lindíssima e de consistência mais grossa. Não sabia mais o que fazer, não tenho talento pras artes visuais nem sei como fabricar tinta, então minhas opções se reduziram.

Bebi a infusão inteirinha, num copão grande de vidro transparente.

Ingeri beleza estética pela primeira vez.
Seria muita hipocrisia minha dar a cara pra bater, desse jeito destemido, mas silenciar em vez de dizer e expressar as coisas imateriais mais singelas e bonitas.

Então eu falo:

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Porque adoro meus vizinhos (ou Não, Miguel, já falei que não!)

Miguel, não brinca na cozinha!

CARAMBA, Miguel, já falei pra parar!

Miguel, se você não parar AGORA EU VOU DESMONTAR A PISCINA.

Miguel! Sai daí, MIGUEL!

PÁRA DE CHORAR, MIGUEL, VOCÊ TÁ ME OUVINDO? TÁ ME ENTENDENDO?

Se chorar apanha, Miguel!

*Barulhos de uma criança chata brincando enfática e randomicamente numa bateria.

Miguel, vai lá com a tua avó, vai.

MIGUEL! EU JÁ AVISEI, NA PRÓXIMA VAI TER!

(Eles podiam pelo menos botar o moleque numa aula de bateria)

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Problemática

Sim, paz, a calmaria, a quietude. Tudo muito bom, tudo uma meta, tudo a tendência natural.

O problema é que às vezes mandar pra puta que pariu é muito gostoso.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Hexagrama 24

O Retorno e sua aura acabam tomando as rédeas duma estética;

e junto, o que o restante do vigésimo quarto traz consigo, como condição, toda a calma e cautela, take your time.

*

No sonho de cochilo vespertino pós-noite de insônia braba sonhei que me agradava a pirotecnia e me juntei a ataques terroristas pelo puro prazer estético. Sonhei também que aquele rapaz azulado, com quem não converso mais, me acusava docemente de enigmática.
Gosto desses sonhos mentirosos, que nada têm a ver com a realidade. Um bom descanso de mim mesma e de outrem.
(Não sou pirómana nem enigmática nem terrorista, e aquele rapaz não me viria falar nada, muito menos docemente)

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Meu refrigerador não funciona

Eu tentei tudo;
Eu tentei de tudo:

Não funciona.

A Ira de Aquiles

Deu pano pra manga.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Crise

Embrionífera.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

L'Échelle de mon rêve

Vejo outros hecatônquiros por aqui. Hábeis com toda essa montanha de membros e pensando e intelectuando fervorosamente com seus cinqüenta cérebros cada.
Olham pras minhas cem mãos, vazias.

É que eu gosto da visão maluca dos cem braços juntos. Aí me perco na esteticidade da coisa e esqueço dessa funcionalidade, dessa destreza e dessas avidezes todas: não sei bem usar tanto braço; uma inútil na titanomaquia.

(A escala diatônica ocidental começou a me escorrer das mãos, por entre os dedos, feito líquido. Já que não sou hábil com milequatrocentas falanges, como são meus colegas, a escala se deformou toda; reorganizaram-se e redistribuíram-se cents como estruturas atômicas ou moleculares de matéria que muda de estado físico e fiquei então somente com a escala Khmer.)