Por Marilene Felinto, na revista Caros Amigos - maio / 2009, nº146
Quando este texto sair - porque a revista é de publicação mensal -, Thais já terá morrido haverá dois meses. E esses tempos de verbo ("terá morrido", "haverá" - futuro do presente composto e futuro do presente simples), parecem não naturais (soam desconexos na leitura) e deveriam ter o nome de "futuro absurdo", não fosse toda a idéia de futuro em si absurda. Como se concebe um "futuro do presente", um "futuro do pretérito"? O tempo presente, diz a gramática, é indivisível; mas o pretérito e o futuro subdividem-se, explica: pode haver pretérito do pretérito, imperfeito e mais-que-perfeito; futuro do presente e futuro do pretérito. Pode-se dizer, portanto, que o tempo presente (o indivisível) é, no estrito senso, a única forma de realidade (Schopenhauer). É isto.
Tiro aqui uma licença poética para escrever sobre Thais e não sobre os outros temas quaisquer que costumo escolher. Deveria começar corrigindo o parágrafo introdutório, mudar para o tempo do leitor (o tempo verbal do momento em que se dá o fato: o presente da leitura, o passado da morte da Thais). E começaria o texto assim: Thais morreu faz dois meses (23 de março de 2009). A escolha inicial, pelo "tempo absurdo", é resultado do impacto que a morte súbita desta pessoa amiga ainda tem sobre mim.
Tiro licença, como se eu pudesse ser um Manuel Bandeira (1886 - 1968), que escreveu dúzias de elegias, poemas ternos e lindos, para os amigos mortos (e para os vivos): "A Mário de Andrade Ausente", "Ovalle", "Olegário Mariano", "...Augusto Frederico Schmidt", "José Claudio", etc etc. Não tenho tantos amigos, e tenho menos ainda a verve poética.
A de Thais foi destas mortes inesperadas (um carro, uma estrada, um choque brutal), que não deixam de provocar um sentimento de inconformismo, de revolta, como se o lógico fosse sempre a vida e não a morte - especialmente de quem ainda não dobrara o cabo das tormentas dos 50 anos (que completaria este ano). E Thais Sauaya Pereira (1959-2009) foi uma espécie de "José Cláudio". Quem foi José Cláudio? Também não sei exatamente (fui eu, foi você): um conhecido (ou amigo ou parente) do poeta pernambucano Manuel Bandeira, que transformou o nome de José Cláudio em poesia e escreveu sobre ele versos magníficos: "O espanto que nos deixaste!/Como fizeste crescer em nós o mistério augusto da morte! (...)".
Não se darão para Thais nomes de ruas nem se construirão para ela espetaculares pontes de homenagem (como se constroem para os grupelhos de direita no poder e seus amigos). Nem Thais, eu acho, desejaria ter seu nome estampado numa ponte. Era insurgente, revolucionária natural, uma força das forças sociais, triunfo da revolução sobre o reacionarismo, uma dessas que ajudou a construir, nos bastidores, um país menos pior chamado Brasil, um lugar de menos desilusão para amigos seus, filhos seus, seus parentes, seu marido. Militante de esquerda desde o Movimento Estudantil na década de 70, contribuiu para desenhar isto que hoje se chama Partido dos Trabalhadores (PT) - tudo sem cargo, tudo no anonimato. Colaborou até mesmo para uma convicção quase impossível: de alguma "resistência ética e grandeza no jornalismo", título do perfil biográfico que escreveu sobre Aloysio Biondi.
O título deste meu texto "Thais? Presente!" tem a ver também com o que ela foi: trata-se da saudação, palavra de ordem (conforme uma amiga em comum lembrou na homenagem íntima que oferecemos a ela), que o MST usa para invocar seus heróis, anônimos ou não, em reuniões.
Entre tantos erros nossos humanos (lembrou outra amiga nossa), Thais parece ter feito tudo certo antes de ir embora: como quem, no poema, toma antes uma consoada (leve refeição noturna, sem carne, que se toma em dia de jejum); como quem vê na morte uma presença "caroável" (que procura ser amável através de palavras ou gestos; afável, gentil, afetuoso); como quem, caralho!, lavrou antes o campo, limpou a casa, pôs a mesa, deixou cada coisa no seu lugar. Como se o poema tivesse sido escrito mesmo para ela.
Consoada
Manuel Bandeira
Quando a Indesejada das gentes chegar
(Não sei se dura ou caroável)
Talvez eu tenha medo.
Talvez sorria, ou diga:
-Alô, iniludível!
O meu dia foi bom, pode a noite descer.
(A noite com seus sortilégios.)
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.
(OPUS 10)
Um comentário:
Linda imagem-homenagem
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