quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Comi no Restaurante Universitário, aquele da bandeja grande no melhor design presidiário. No almoço, hoje, de vestido vermelho, óculos de cor borgonha. Fui só, fiz-me surda no som das falas - eufóricas! Céus, é janeiro e o calor me faz pingar! - e na fila vi o rapaz atrás de mim me observar estarrecida e ininterruptamente. Apesar da miopia corrigida pelos óculos fiz-me inda mais míope e não prestei atenção em mais nada que não o pedaço pesado de melancia que tentava se equilibrar num cantinho do recipiente metálico entortado.
Até tirei meus óculos, já que nunca consegui comer usando-os. Olhava para qualquer ponto de fuga, alternando com uma leitura, dificultada por ruídos, do último livro aqui citado - cuja capa traz uma fotocomposição bem vermelha - e, quando brevemente voltava a consciência ao salão, percebia de visão lateral soslaiada que um rapaz sentado só me encarava. Meu estado neutralizava a mania de perseguição e também o complexo de invisibilidade e era claro que era comigo. Mastigava, levava o garfo à boca, fazia tudo, da outra mesa à minha esquerda, com o pescoço virado para minha direção. Quando resolvi ver quem cargas d'água essa pessoa era e a fitei, reconheci o rapaz da fila. Sua bandeja era quase vazia, a minha ainda pela metade.
Demorei-me muito, mastigando devagar pela bochecha internamente machucada e pela apetência reduzida, tão duro de quase cru estava o arroz integral. A melancia não me descia mais, o rapaz a me olhar tanto sem sobrar nada a comer, larguei atipicamente um bocado de comida ao desperdício e de súbito me levantei. Ele ridiculamente se apressou e levantou junto! Que desespero aquilo me deu! Dirigi-me enfim ao banco, tão longe, atravessando tantos institutos e prédios naquele sol infernal. Uns sete minutos de caminhada e lá estava o rapazola a me seguir. Imagino que quisesse apenas saber meu Instituto, ainda que estivesse bem estampado na bolsa que carregava comigo. Só me lembro de, no banco, não o ver mais - não sei se me seguiu até o fim ou se desistiu um pouco antes, quando viu que o caminho era longo, o sol fortíssimo e de avermelhar e que eu o reparara.
Achei quase gracioso ter ganho um stalker assim, sem mais nem menos. Não descarto todas as maiores coincidências do mundo mais a minha mania de perseguição me causar alucinações, mas vá lá.
O que tira a graciosidade da coisa é saber que, se soubesse ou pudesse observar o interno, essa bagunça que sou e estou, jamais me seguiria, sequer me olharia o moçoilo. Tomaria uma distância segura, como fazem os majoritários (e deveriam os da minoria), e no máximo me observaria por curiosidade excêntrica.

2 comentários:

Unknown disse...

é que alguns gostam de tentar arrumar "essa bagunça".

tentar.

Unknown disse...

sabe o que é irônico? o design da bandeja do Bandejão é idêntico ao das bandejas da prisão no Shawshank Redemption.